quinta-feira, 30 de março de 2017

A primeira carta que lhe escrevi, mas que nunca lhe enviei...

...Continuando...


Esta foi a primeira carta que lhe escrevi e que nunca lhe enviei. Não podia enviar porque não sabia o seu endereço postal, nem sequer sabia o seu nome completo.


Tem uma forma estranha, eu sei.


Tudo o que se passou comigo desde que vi esta miúda  foi (e é), no mínimo, estranho e não é fácil de ser descrito por palavras. Digo bem: desde que vi esta mulher [no dia 22 de Junho de 1981], pois tal situação progrediu no tempo e prolongou-se até hoje, dia 30 de Março de 2017.

A carta tem a forma de um livro. Na verdade é apenas uma folha recortada e dobrada, com um texto a ocupar as “duas páginas” interiores.

Na contra-capa tinha (como se vê) uma simples inscrição, mas que se tornou uma verdadeira profecia e que se cumpriu: Eu tenho absoluta certeza que nunca te esquecerei. Acredita!...

Sim, cumpriu-se!

Porquê esta forma de livro?

Qual era o texto que estava no interior?

O texto tem algumas partes borratadas porque eu usava caneta de tinta permanente e foram caindo algumas lágrimas enquanto escrevia…

Comecemos pelo formato de livro.

Na capa continha (eu apaguei para publicar sem problemas de ser identificado) mais a seguinte Inscrição: “Volume I” e o nome do autor (eu, logicamente). Ao apagar o nome cortei, também, o  “Volume I”.
No texto explica por que razão escolhi este formato: Para poder explicar o que sinto por ti e tudo o que gostava de te poder dizer, gastaria mais de um grosso volume de um livro (…) e muitos volumes poderia escrever de futuro, se para tanto tivesse capacidade…


[Estou no meu local de trabalho, por isso, neste Post, fico por aqui. Pronto falarei sobre o texto que continha esta missiva… que nunca enviei e perdurou entre os meus velhinhos livros – uma espécie de tesouro sem preço, o que resta do tempo em que me sentia mais útil, vivo e digno de viver.]

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terça-feira, 28 de março de 2017

Naquela segunda-feira: estive perto do paraíso, vi a minha “celestial diva”…


… Continuando…

Nessa segunda-feira, decididamente, tinha de voltar a ver a minha “encantadora visão”.

Estive de plantão à paragem do autocarro, com a mesma atenção de um soldado na frente de guerra.
Não sei se esperei tempo infindo ou se o tempo que lá permaneci, por pouco que fosse, se tornou, para mim, uma eternidade.

Durante esse tempo de angustiante espera, foi variando o meu estado de espírito: ora angustiado com a quase-certeza de que ela não pareceria, ora suplicante a Deus, a todos os Santos e deidades que concebessem o milagre dela aparecer.

Fosse porque as minhas preces foram ouvidas ou fosse por mero acaso, eis o momento esperado – a minha “divinal e encantadora visão” reapareceu.
Por triste fado meu, sempre assim foi e receio que sempre assim será, cada rosa está resguardada por um molho de espinhos, ou seja, a minha “celestial diva” estava acompanhada.

Queria eu ter capacidade bastante para verter em palavras o que eu senti no exacto momento em que a vi. Meu Deus, que sensação!... Todo o meu corpo foi percorrido por uma torrente de energia que, simultaneamente, arrepiava e queimava, vivificava e me deixava prostrado e paralisado, era a melhor sensação eu já tinha vivido e, ao mesmo tempo, a mais aflitiva das impressões.

Só de vê-la já estava cumprida a maior alegria da minha vida. Bastava ter a oportunidade de a ver de longe, mesmo com a certeza de que ela nem me viu, não sabia que eu existo, muito menos poderia imaginar a efeito que tinha em mim.

Segui-a de longe, mas não fui capaz de me aproximar. Acabei por perdê-la no turbilhão do vaivém de pessoas que enchiam o passeio e a avenida. Contudo, não era importante segui-la. Vi-a, isso era tudo o que eu mais queria, o maior privilégio divino, a maior dádiva de Deus.

Por ali andei, errante, procurando-a ao longe, vagueando em sonhos, entre o purgatório da minha incapacidade de me aproximar dela e o paraíso de poder olhar para ela.

Que beleza! Que harmonia! Que divindade!

Era, de certeza, a mais especial, a mais bela, a mais divinal de todas as mulheres do Universo.

Acabei por regressar a casa, com o coração dividido: ora a explodir de alegria pela felicidade de a reencontrar e poder confirmar que o Xico esta certo e era ela mesmo que eu procurava; ora apertado pela sensação de que seria impossível aproximar-me dela.

Ela era perfeita.
Eu não a mereceria.

Ela nunca poderia ser minha. Era demasiado “boa” para mim.

Mesmo assim, faltava agora poder tentar aproximar-me dela…

Primeira operação: escrever-lhe.

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sábado, 25 de março de 2017

Quando se fecha uma porta, Deus abre uma janela…


… Continuando…

Na prossecução da minha narrativa, havia quedado à porta da minha “diva”, mergulhado na mais amargurada e dolorosa decepção.  

O Xico, porém, astucioso e atento, não tardou em descobrir uma janela de esperança que pudesse gerar um paliativo para o meu estado de desilusão. 

Uma das tradições da minha terra natal era (e ainda é, embora em menor grau) a ida à feira quinzenal. Da parte da tarde, a feira funcionava como o grande ponto de encontro da juventude de todo o concelho. Num município iminentemente rural e com meia centena de freguesias, as moçoilas e os rapazes rumavam à feira com a mesma predisposição com que se vai a um concerto, a uma festa social ou a um espectáculo cultural. Ainda hoje, em algumas freguesias, há pequenas empresas que facilitam a ausência dos seus funcionários em dia de feira.

Por uma questão de integração social, também eu participava dessa praxis juvenil, embora de forma menos assídua.
Não padeço de oclofobia, mas sempre apreciei muito mais o convívio dentro de um limitado grupo de amigos, tranquilo e pacífico, onde todos se entendem e podem compartir, positiva e democraticamente, as suas singularidades. Grandes aglomerações de pessoas, muito ruído ou falta de espaço não me cativam. Sempre entendi que para conviver é indispensável comunicar. Gosto imenso de conversar, compartir o pouco que sei, aprender com os demais e disfrutar da companhia dos que me são próximos ou caros em afeição. 
Além de tudo isso, ocupava os tempos livres com hobbies de cariz bastante mais construtivo e enriquecedor.

Voltando aos factos...

Tudo mudou quando o Xico disse: «Eureka!... A Isabel vai à feira amanhã, de certeza!... Só não a encontras se não quiseres.»

Eis que voltou a brilhar o sol na tenebrosa penumbra que enegrecia a minha aura. 

Por impedimentos inadiáveis, o Xico não podia ir à feira e eu já tinha ajustado outros compromissos, improteláveis e relevantes.

Fosse como fosse, a feira tornou-se o centro das prioridades, o mais desejado e importante evento do universo.

Regressei com a persuasão heróica de um oficial romano – tão pronto para a luta como desejoso por lutar.

Regressei directamente a casa.
Essa noite pareceu-me interminável. Ansioso e imaginando mil um cenários para o dia seguinte, praticamente não consegui dormir.

Eis que, enfim, chega a segunda-feira.

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segunda-feira, 20 de março de 2017

Viagem às portas do paraíso onde imperava a minha "diva"...

… Continuando…

Eis-me, finalmente, chegado ao domingo, na cronologia (e, por que não dizer, na cronografia, uma vez que o tempo se funde com os factos) do meu relato. Nunca a expressão “dia santificado” teve tanto significado.
Era o dia 5 de Julho de 1981.

À hora que havíamos acordado lá estava eu na casa do Xico. Eu ia ansioso mas pouco convencido. Em bom rigor, eu sempre me persuadi que não tenho direito a grandes mercês da sorte.

O Xico não me havia revelado nada sobre a morada da minha “semideusa”. Agora, porém, e para descartar as nossas formas de transporte disponíveis - bicicleta e motorizada -, começou por localizar o pedacinho de paraíso onde a minha "diva", radiantemente, reinava. Então, propôs que fossemos a pé porque ela morava na freguesia vizinha. Seriam, quando muito, três quilómetros e, acrescentou ele, «há grandes vantagens em irmos à pé: “controlamos” as miúdas, podemos conversar sem problemas… enfim, só vantagens!»

Para mim, a grande desvantagem era o calor infernal de um dia de finais de Junho. Porém, dada a urgência e a importância da jornada, eu estava pronto a todas as adversidades, mesmo que fosse para uma peregrinação a Santiago Compostela.

Seguimos jornada. Como bons aldeões estávamos dotados de uma resistência digna de um militar das tropas de elite e de uma capacidade de resiliência quase sobrenatural. Os dois havíamos nascido e crescido numa aldeia pacata, alegre e feliz. Depois da Páscoa começava a época das festas. Era muito raro o fim-de-semana sem festa, romaria ou simples bailarico.

Retomando o caminho seguido, juntamente com o meu amigo Xico, nesse dia de Julho do ano de oitenta e tum, eis-me completamente incrédulo: eu estava dentro do “meu território”, não estava em local que eu desconhecesse em absoluto.

Três coca-colas depois, ou seja, passados três cafés, entramos num estreito carreiro “de pé-posto”, muito polido pelo intenso trânsito pedonal, servia, inclusive, de atalho para uma concorrida feira quinzenal. Era no seguimento dessa estreita vereda que se situava o pedacinho de Olimpo onde vivia a minha inigualável e celestial "diva". 

O quintal dela tinha (e tem) a particularidade de ter caminho público em todo o seu perímetro. Podia, por isso, circundar todo o quintal.

Com o coração desafiar o rendimento extremo de um motor de fórmula 1, todo o corpo preparado para receber o impacto de um raio eléctrico de elevada potência e voltagem, à espera receber aquela sensação inibidora de todas as minhas reacções vitais,  racionais e instintivas, circundei duas vezes o quintal, num acto quase de adoração. Não sei se o Xico disse algo. Se falou, eu não ouvi nada.

Como um submisso vassalo, rondei “o paço da suprema princesa”; como um crente, senti-me a venerar uma entidade celeste.
Nada! A casa estava completamente silenciosa, fechada, deserta.

Oh desilusão!... Não podia receber maior decepção, uma penalização mais pesada, um golpe mais incisivo.

Porquê, meu Deus, tal castigo? Porquê esta falta de sorte? Porquê?...
Trocava tudo por vê-la… eu necessitava ver essa semideusa chamada Isabel, imperiosa e desesperadamente!

Desapontado, vencido e completamente de rastos, não derramei lágrimas mas chorei de forma sufocada no mais profundo do meu peito.

Vendo a minha cara de desilusão, o Xico teve uma (mais uma) brilhante ideia.


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terça-feira, 14 de março de 2017

Quando “ELA” é o centro do universo e a ansiedade tortura…

… Continuando…

Estava eu, na minha narrativa, no ponto em que havia montado guarda à porta do Xico. 
Com a determinação do mais destemido mestre d’armas, com a coragem de um guerreiro e com uma ousadia que ofuscava a valentia do Santo Condestável, não arredaria pés dali sem saber algo de substancial sobre a “minha diva”.

Parece que a sorte protege os pertinazes e, quiçá, esteja mais do lado dos obstinados do que dos apaixonados. Pela minha obstinação merecia ser compensado com alguma ventura. O Xico chegou ao anoitecer. Trabalhava de padeiro, levantava-se pelas três da manhã, pois, rotativamente, ele e os colegas dividiam as noites de domingo para segunda-feira, já que, nessa idade e nessa época, o fim-de-semana era um tempo crítico e precioso. Por isso regressou cedo. 
Mal o avistei ao longe, pareceu-me que o mundo se iluminou e saí prestes ao seu encontro, com a ânsia do bíblico pai do filho pródigo. 

Embora o Xico estivesse um pouco agastado comigo, fruto da discussão dessa tarde, acedeu submeter-se à minha inquisitorial “entrevista” (eu bombardeava-o com perguntas, sem lhe dar folgo), a contragosto do padrasto. O padrasto era uma mal-azada figura, insuficientemente escanhoado, de tez crestada, com um ar de magrebino ressequido e recurvado, usava uns óculos desproporcionais e padecia de uma crónica falta de delicadeza no tom de voz. Falava "tripeiro típico" (era natural do Porto). Apesar disso, não o julgo por má pessoa.

Quase sem tempo para respirar, o Xico foi desfiando as mais sublimes e desejadas palavras do mundo, para aquela ocasião. Para mim soavam como a mais melodiosa e encantadora sinfonia. Deleitava-me ouvi-lo dizer que sabia tudo o seu respeito: o nome, onde morava, a idade… até a alcunha de família e uma incrível coincidência - eu conhecia um irmão dela.

O Xico alegava ter passado com ela umas tardes e, dando-me razão, também ele achava que a ela era «uma miúda especial».

Havia, contudo um senão: ele podia estar errado (podíamos estar a falar de pessoas diferentes)!

Questionei entusiasmado: «Xico, quando vais comigo até à casa dela?...»

Aqui residia um problema. Apenas poderia ir comigo no domingo seguinte.
Inconformado, restou-me aceitar que assim fosse, na certeza de que uma semana costumava passar depressa.

Não consigo expressar muito bem a dificuldade que tive em passar essa semana. A ansiedade, a incerteza, os sonhos, a convulsão que me percorria o corpo quando a imaginava frente a mim, a sensação de calor que nascia no peito e percorria todo corpo quando recordava a sua figura, o desejo de vê-la, a constante incerteza, o tempo que passava tão vagarosamente, a insegurança que me atormentava pela quase certeza de que, na sua presença, seria possuído pelo pânico e não teria capacidade de reacção… enfim, tudo isto repetido na duração centúria de cada dia e no martírio infindo de cada noite.

Cancelei todos os meus “compromissos”. Nada tinha interesse. Tudo era inútil, supérfluo e dispensável. Eu passei a ver-me como sendo a pessoa mais ridícula e insignificante do mundo. Ninguém tinha mais defeitos do que eu, ninguém tinha tão poucas qualidades e tão grande falta de virtudes.

Neste clima hostil de “estado de sítio” permanente, eis que a semana passa e, finalmente, chega o domingo.  

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sábado, 11 de março de 2017

O primeiro efeito dessa "minha diva" na minha história de vida...

…Continuando…
Dizia eu que “in die illa, lucem accendit est et spes renascitur...” (naquele dia acendeu-se uma luz e renasceu a esperança… [no meu ferrugento latim]).
 Em abono da verdade, não foi uma coisa assim tão simples. Em primeiro lugar, imaginei que o Xico estivesse a galhofar comigo, o que era normal entre nós. Em segundo lugar, eu achava que também  conhecia todas as pessoas que ele conhecia e, sobretudo, todas as “suas conquistas”.
Contudo, o Xico foi rotundo e directo: «Essa miúda que tu descreveste é a Isabel, tenho a mais absoluta certeza!»
Ante a minha incredulidade, ele foi ainda mais convincente: «Sei bem onde ela mora, não é muito longe, conheço a sua família e já passei umas boas tardes com ela…»
Claro que eu não cabia em mim de alegria, mas ficava-me o receio da desilusão. E se não fosse ela!?...  
Desafiei o Xico a irmos, sem mais delongas, ao encontro dela. Só que, infelizmente, nesse dia tínhamos um compromisso que, para os restantes membros do grupo, era mais tentador. Para mim, procurar a “a divinal e electrizante” miúda era o mais importante da vida. Estávamos num insanável conflito de interesses. Quase se gerava uma quezília grave entre nós.
Como resultado da discórdia que se criou, decidi não acompanhar o grupinho nesse dia. Essa foi (apenas) a primeira complicação, a primeira alteração da minha vida, por causa dessa “diva” que, na realidade eu nem conhecia nem tinha a certeza se o Xico a conhecia.
Eles partiram para a festa, como estava calendarizado. Eu regressei a casa.
Custou-me a estar em casa. Eu não podia esperar… necessitava saber mais coisas sobre a minha “diva”.
Vi-me possuído por uma ansiedade insuportável, por uma necessidade incontrolável de fazer algo que aliviasse um aperto desesperante que me sufocava o peito.
Tentei dormir mas não consegui. Tudo me parecia irritante e inútil… Assim passei essa infindável tarde de domingo, esperando que anoitecesse. Ao cair da tarde fui colocar-me de sentinela à entrada da casa do Xico. Decididamente, não sairia de lá sem saber tudo sobre a minha “diva”, nem que para tal tivesse de esperar toda a noite.
Lá fiquei, tempo infindo e num estado em que cada minuto parecia estender-se por várias horas, até que, finalmente, o Xico surgiu ao  alcance da vista.
…/… 

quarta-feira, 8 de março de 2017

A boa-nova!... (In die illa, lucem accendit est et spes renascitur...)

...Continuando...

Aquele grupinho de aventura, ao qual eu pertencia, não era um gang. Era um grupinho de amigos, responsáveis, bem-intencionados e que se esforçavam por manter as suas malandrices dentro dos limites da polidez, urbanidade e educação, pese embora, uma ou outra vez, as simples brincadeiras que fazíamos tivessem resultados infelizes.
Apesar disso, a minha família não via com bons olhos a integração nesse grupinho, mais em razão dos interesses divergentes dos seus membros e da pouca propensão para a cultura, do que das suas acções – eram maus exemplos em termos académicos, em termos culturais e em termos de interesses. Contudo, como eu sempre fui bom aluno, com um comportamento quase imaculado e mantinha uma estreita ligação com as artes, sempre gozei de uma moratória que distendia até bem longe a minha liberdade.
Um dos membros desse grupinho era um jovem de compleição franzina, muito moreno, extremamente ágil e com uma história de vida tão longa quanto tortuosa.
Foi criado, desde muito tenra idade, por uma tia-avó. A sua progenitora, mãe solteira, com mais dois filhos (mais velhos), abandonou o petiz aos cuidados da tia. Vivia a cerca de um quilómetro da minha casa e fomos bons companheiros de infância. Quando chegou a idade de ingresso na escola, a tia-avó conseguiu que o petiz fosse admitido na “Oficina de S. José”, onde permaneceu, apenas em tempo de aulas, até completar a quarta classe. Obtido o diploma desse grau académico, abandonou a instituição e regressou à companhia de “velhota”. Por ali foi sobrevivendo, entre a casa da tia-avó e a dos vizinhos. Entretanto foi arranjando algumas ocupações, nunca de grande duração mas onde, pelo menos, tinha alimentação, eventualmente tinha também dormida e ganhava para os “gastos”. Chamava-se Francisco – era, simplesmente, o Xico.
À data dos factos em que estava sincronizada a cronologia da minha narrativa, já havia falecido a tia-avó do Xico. A sua progenitora regressara, agora com um novo companheiro e mais dois irmãos, ainda muito pequeninos. Nessa altura o Xico trabalhava numa padaria. Trabalhava de noite e, a maior parte das vezes, pouco dormia de dia. Tinha, no entanto, uma resistência incrível e uma energia que ensombrava a fama das pilhas “Duracel”.
De vez em quando, o Xico gabava-se de ter “engatado” uma miúda, pelo que, durante um ou dois fins-de-semana não apareceria “ao toque de reunir” para a formatura do grupinho.
Naquele domingo, dia de vinte e oito de Junho, desse ano de aventuras (de 1981), o ponto de encontro do grupinho era num café que actualmente já não existe (conhecido como Café Galocha ou Café do Pistolão – denominação herdada da alcunha do proprietário).
Quando o Xico chegou já eu e os restantes membros do grupinho estávamos a postos. Saciada a sede e actualizadas as novidades, eu estava demasiado calado, a ponto de ouvir o Xico dizer: «Tu nem falas… viste alguma assombração ou estás tolhido pelo calor?»
Fui sincero: - «acho que vi uma assombração…»
E desatei a contar a inopinada e quase celestial visão. 

Tão concreto, rigoroso e expressivo fui na minha descrição que, ainda eu não tinha acabado de narrar o sucedido, já o Xico afirmava, de forma categórica e indubitável: «Éh pá!… Eu conheço muito bem essa miúda!...»

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[Porque hoje é o Dia da Mulher…]

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Porque hoje é o Dia da Mulher…

Um grande beijo a todas as mulheres do mundo, de forma muito especial: 
   - À minha mãe, 
   - À minha consorte,
   - A todas as mulheres que tiveram um papel importante na minha vida.

 O meu Obrigado e bem-haja!

A todas as mulheres que sofrem física ou psicologicamente, vítimas de injustiça, descriminação, insensibilidade ou maldade humana, aqui fica a minha solidariedade, a minha singela homenagem e o  tributo desde grande admirador.


Afinal, o mundo sem as mulheres, se existisse, seria um lugar inóspito e tenebroso!

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domingo, 5 de março de 2017

O despertar para a mudança...

... Continuando ...

Fiquei, na minha paupérrima exposição (isto parece uma redacção da escola primária) no final da noite desse assombroso dia de Verão e... citando o Livros dos Genesis: “Sobreveio a tarde e depois a manhã: foi o primeiro dia.”
[Reafirmo: move-me aqui o sentido de ser rigoroso e fiel na narrativa e nada preocupado com questões de riqueza, estética ou qualidade literária.]
Vencido pelo cansaço, acabei por adormecer já perto do romper da aurora.
Despertei, poucas horas volvidas, na manhã seguinte (- era o segundo dia -), com uma sensação estranhíssima de pequenez e inferioridade. Eu era o ente mais desprezível, inútil, rude, ignaro e miserável do universo. Em abono da verdade, creio que desse depreciativo julgamento e dessa medíocre impressão jamais me separei, ou seja, ainda hoje, quando me autoavalio, não vou muito além dessa classificação (mas esse assunto não é aqui chamado à colação).
Mal despertei, retomei o meu raciocínio lógico (se algo pode existir de lógico que possa ser invocado em toda esta história) sobre a quase-celestial figura. Fiquei-me, depois de acordar, por uma terceira hipótese: a miúda podia estar de passagem, podia viver longe… quiçá fosse um mero golpe do acaso o facto de ela ter passado pela minha terra!
Penitenciava-me pelo delito imperdoável de nada saber sobre ela. Afinal a culpa era exclusivamente minha: eu podia ter reagido de outra forma; talvez segui-la… ou então, porque não, arranjar uma desculpa para falar com ela.
Sempre assumi, com frontalidade e responsabilidade, as minhas culpas e fraquezas. Aqui não seria diferente, por muito que isso magoasse.
Nesse mesmo dia mudei, integralmente, todos os meus hábitos e rotinas. Não voltei a reunir-me com a minha turma. Até ao final da semana fichei-me em casa.
Foram uns dias difíceis. O meu cérebro estava permanentemente ocupado com este assunto, partilhando o tempo de processamento entre a minha culpa, a análise de uma breve sequência de imagens que eu podia dissecar, fotograma a fotograma, e a triste condenação da certeza de jamais voltar a ver aquela inebriante figura.
Em tão lastimável estado permaneci até ao fim-de semana.
Para além da minha turma eu tinha um grupinho de amigo, muito restrito, muito cúmplice e solidamente unido. Esse grupinho era constituído por quatro membros, direi melhor, éramos quatro subidos heróis de inauditas proezas e aventuras. Amigos desde crianças – “filhos de mesma geração e da mesma sorte”, como nós usávamos dizer. Destes, só eu estudava. Os restantes haviam deixado a escola. Um ficou-se pela quarta classe; outro nunca ligara nada à instrução e cumpriu “recrutamento obrigatório” do ensino mais vezes em casa do que na escola; o terceiro, que era o mais malandro do grupinho, ficou pelo sexto ano. 
Este grupinho de aventuras, do qual preservo as melhores recordações e uma infinda saudade, apenas funcionava ao fim-de-semana ou, de forma ad-hoc, quer em ocasiões festivas, quer para aventuras e malandrices.
Por vezes um dos elementos do grupo tresmalhava-se. Se partia de férias, se saía para casa de familiares, se tinha algum tipo de outra actividade que lhe ocupasse o fim-de-semana, faltava à chamada por um período de tempo razoável, sem prejuízo de manter todos os compromissos para “acções ad-hoc”, sempre que fosse “requisitado”.  

Surpreendentemente, e contra todas as probabilidades, foi neste grupinho que se fez luz sobre aquela misteriosa e quase-divinal figura.

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quinta-feira, 2 de março de 2017

Aquela infindável noite...

Continuando…

Fiquei, na minha humilde e simplória narrativa, na noite desse inaudito dia de verão, de cujo sucesso, evolução e implicações na minha vida, me propôs, aqui,  fazer uma íntegra e fidedigna exposição. 

Comprometo-me a ser fiel aos factos e verídico em tudo o que narrar. Pecarei, estou certo, por inabilidade e incapacidade de verter em prosa, de forma suficientemente clara e profunda, quer as minhas sensações, quer a descrição dos acontecimentos. Abreviando: sou um palerma sem jeito para as letras, com poucas capacidades e habilidades, mas sou (e sempre serei) honesto e rigoroso.

Caiu a noite, nesse dia de Junho, e eu recolhi ao meu cantinho privativo – o meu quarto. 
Quase havia esquecido tudo o que se passou durante o dia. 

Nesse dia não liguei a televisão. Pelo contrário, fui acometido de uma vontade imensa de ouvir música em ambiente escuro. De luz apagada, auscultadores a tapar a totalidade do pavilhão auricular, fiquei tempo sem fim a degustar músicas calmas, ora eruditos temas clássicos, ora músicas românticas.

Adormeci a escutar o “28 degrés à l'ombre” de Jean-François Maurice.

Tão rápido embalei no sono como comecei a sonhar com aquela graciosa, ímpar, arrepiantemente divinal e enérgica figura, com a qual havia sofrido um choque, na tarde desse dia.  
Nos meus sonhos eu via, com uma precisão geométrica, aquela excepcional figura. Em simultâneo, eu revivia a sensação que me havia imobilizado nessa tarde. Ficava-me no peito um estranho sentimento, misto de espanto e encanto, de fascínio e nostalgia, de dor e alegria, de prazer e tristeza.

Esta situação repetiu-se várias vezes, a ponto de me deixar uma estranha dor no peito – uma dor corpórea que me espantou o sono.

Incapaz de dormir, não sei se sonhava ou se meditava, mas, invariavelmente, o tema era o mesmo – aquela miúda que me deixou estático, na “avenida” da urbe sede do meu concelho, onde, nesse dia eu fora, como tantos outros dias, ao encontro da minha turma.

Comecei, entretanto, a discorrer de forma mais lógica. Formulava questões e tentava encontrar a resposta.

Por que razão vivenciei tão estranha sensação?

Ainda hoje, tantos anos depois, questiono-me se alguém terá vivido igual acontecimento. Desconheço a resposta.

Quem seria ela? Qual seria o seu nome? Qual seria a sua idade?

Para estas questões eu não tinha resposta. Nem sequer me atrevia a formular suposições, a não ser o facto de achar que ela seria da minha idade – pura intuição.  

De onde seria? Porque razão nunca a tinha visto antes?

Bom, ela não frequentava a minha escola. Disso tinha absoluta certeza!

A minha escola era, nessa época, a única do concelho. Também não era provável que ela, sendo do meu concelho, estudasse noutra escola, sendo certo que a minha escola captava alunos dos concelhos vizinhos e não havia notícia do contrário.

Restavam algumas alternativas.

Primeira: ela podia não ser estudante. Nesse tempo a escolaridade obrigatória quedava-se pelo sexto ano de escolaridade.

Segunda: ela podia estar no estrangeiro, ser filha de pais emigrantes. Isso explicaria, racionalmente, o facto de nunca a ter visto… afinal era tempo dos emigrantes regressarem de férias. Fazia sentido, mas ficava, igualmente, sem resposta para as questões mais importantes: Quem era? Como se chamava?

Ora sem sono, ora fazendo um esforço titânico para não adormecer, assim passei a noite.

Num misto de cansaço, de estranho sofrimento e de desilusão, acabei por imputar a mim próprio a responsabilidade por este meu estado.


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