quarta-feira, 31 de maio de 2017

A minha secreta “Madrinha de guerra”…


…Continuando…

Fiquei, no último “Post”, algures pelo ano de 1986.
Nesse ano, apesar de estar a cumprir o serviço militar obrigatório, voltei a estudar. Embora tivesse que passar pelo crivo de uma série de quesitos e requisitos que eram impostos e filtrado por uma catadupa de vistos e autorizações, a minha solicitação apareceu deferida, na “ordem de o dia à unidade”.
Reiniciei, então, a minha vida académica, agora com o estatuto especial de “militar estudante”.
Nas minhas deslocações à instituição de ensino que frequentava, a maioria das vezes ia fardado. De início, creio que houve uma certa rejeição, depois uma plena aceitação e, por fim, uma quase veneração. Como militar da Armada fardado, fazia algum sucesso…
Em bom rigor, eu nunca deixei de estudar. A minha integração nas fileiras da Armada não foi mais do que a continuidade da vida de estudante, primeiro na Escola Alunos Marinheiros, depois na Escola de Electrotecnia do Grupo nº1 de Escolas da Armada e, passado a “pronto” (em terminologia militar, “pronto” quer dizer “com a especialidade terminada com sucesso”), voltei a estudar em instituições de ensino oficial.
Vou abreviar a minha história de vida, no que concerne ao tempo de militar. Com isso passarei por cima de algumas histórias que gostava de contar. Como não sou bom “contador de histórias”, a minha pobre e humilde vida é de uma insignificância atroz e desprovida de factos interessantes para relatar, os poucos eventos que existem na minha vida militar não me atormentam a alma, nada me penaliza, por isso, omitir tais factos.

Poderia aqui contar algumas das minhas aventuras, sobretudo aquelas que tiveram um desenvolvimento inopinado ou desconcertante. Lembro-me, por exemplo, de algumas histórias que sucederam quando descobrimos (eu e os outros militares que comigo cumpriam o serviço militar obrigatório) que o telefone interno da rede da Marinha, a partir das 20:00h e todos os dias, podia aceder à rede nacional, bastando para isso discar o algarismo zero. Contudo, dado que tais histórias não me incomodam, poupo energia se as não reavivar.
Ou então, poderia narrar histórias bem mais presencias, como aquela que me envolveu com uma assanhada funcionária civil do Hospital da Marinha, divorciada e… bastante “carente” e cujo “enredo” e desfecho foram condicionados por esta história de vida que aqui estou a narrar (hoje arrependo-me de ter agido de tal forma... ).
Suprimirei, também, muitas outras aventuras, tal como alguns episódios mais confrangedores que ocorreram no tempo que passei entre as hostes deste “reino de Portugal”.
Nesses dois anos sucederam-se acontecimentos que me marcaram para o resto da minha vida: um camarada militar e amigo (de uma família publicamente conhecida de todos os portugueses) foi preso, julgado e condenado num assunto que me envolvia (eu era o queixoso); dois outros “filhos da escola” suicidaram-se durante a sua vida militar; entre civis, assisti a um suicídio, junto a mim, em plena cidade de Lisboa; etc. etc.
Sobre estes assuntos poderia escrever um corpulento volume, mas não me acho grande prosador, nem disso sinto necessidade. Tais histórias estão melhor hibernadas e podem, muito bem, morrer comigo.
Abstenho-me, também, de relatar mais sonhos com a minha diva Isabel – uns, prazerosos e encantadores; outros, negros e amargos pesadelos. Neste tempo em que fui militar, tinha-a tão presente, falava com ela amiúde e invocava-a sempre que necessitava de ânimo, mesmo que ela estivesse longe no espaço, no tempo e já nem sequer se lembrasse que eu existia.
Embora eu me sinta uma pessoa execrável e, se alguém ler isto, dirá que é uma aberração, apetece-me dizer: «Isabel: tu foste militar comigo; foste a minha fascinante companheira de tropa… mesmo que não soubesses, nem imaginasses que eu existia, embora estivesses longe… e que estivesses “nas tintas” para este estafermo e patético demente…
Como eu adorava que ainda existissem e tu fosses a minha “madrinha de guerra”! » 

Assim sendo, pulemos no tempo para o início do Verão de 1987. 
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domingo, 28 de maio de 2017

Um sonho dúbio, mas pungente…


…Continuando…


Como já aqui confidenciei, durante o meu tempo de tropa eu tive um “diário de bordo”, onde registava tudo o que me acontecia, o que me preocupava e aquilo que eu sentia. Por razões que serão fáceis de imaginar, decidi destruir esse arquivo de coisas pessoais, intimas e tão inconfessáveis como incómodas (e, algumas delas, inacreditáveis).

Um dos registos que mais gostaria de ter comigo neste momento, e que sinto pena ter destruído, era aquele em que eu descrevi um sonho que tive, cujo cenário era de uma "realidade" tão impressionante que ainda hoje me perturba.
Não tenho a certeza da data em que ocorreu, nem conseguirei, agora, descrever todos os pormenores. Sei, contudo, que corria o ano de 1986, eu cumpria, então, o serviço militar no Hospital da Marinha que nessa data estava instalado no Campo de Santa Clara (junto à Feira da Ladra) em Lisboa. Havia uma regra relativa ao serviço, destinada a facilitar a vida aos militares que eram de longe, como eu – o serviço de fim-de-semana abarcava, sexta-feira de tarde, sábado, domingo e segunda-feira de manhã. Assim, durante esses dias, o número de militares era muito reduzido, Neste Hospital trabalhavam, também, muitos civis, homens e mulheres, nos mais diferentes serviços e nas mais distintas funções. 

Num desses fins-de-semana em que fiquei de serviço, com pouca gente para ajudar a passar o tempo e como não podia sair, restavam-me poucas alternativas – basicamente: ver TV, ouvir rádio e ler.

Sei que, logo após o jantar, decidi folhear uma revista de electrónica, deitado na minha cama. Estava completamente sozinho. Os restantes militares que haviam sido brindados com um fim-de-semana em Lisboa, ou estavam numa sala-de-estar (que eu detestava), onde se podia jogar, ver TV, ouvir música e afins, ou então estavam nos seus posto, de serviço.

Comecei a ler a dita revista, mas poucos minutos volvidos, já eu navegava por outras paragens: pelo meu “habitat natural”, pela minha família, pela minha terra natal, pela terra Isabel e da minha namorada… e pela Isabel.

Fechei os olhos e adormeci.

Pouco minutos transcorreram e eu já estava bem longe do Hospital de Marinha.

Via, então, a minha namorada e a Isabel juntas. A Isabel convidava a minha namorada para o seu casamento. Minutos volvidos, o cenário mudou e eu assistia, já, ao casamento dessa que sempre foi a minha excelsa diva.

Eis-me, então, a braços com numa situação ambígua, contingente conflituosa: por um lado eu sentia-me um gladiador, em pleno Coliseu, ferido de morte; por outro lado, sorria-me um cantinho do coração por saber que a Isabel estava feliz.  

Há duas coisas que me ficaram gravadas na lembrança.
A primeira – eu nunca consegui ver a cara do noivo dela. Ainda hoje não o conheço. Com toda a sinceridade, do mais fundo do meu coração, gostava de o conhecer. Aliás, estimava muito saber tudo a seu respeito e (mais uma tara minha!) gostava de me comparar a ele. Tentar perceber o que me faltava para merecer entrar no mundo da Isabel. Confesso que não o sinto como um rival, mas sempre tive inveja dele (sei que parece mal dizer isto, mas aqui, de forma anónima, juro dizer a verdade).
A segunda das lembranças que me ficaram desse sonho, é uma frase que eu nunca entendi, mas que a princesa Isabel disse no contexto que a seguir tentarei relatar.
 A minha namorada acercou-se da Isabel para lhe dar os parabéns e desejar-lhe que fosse “muito feliz”. Contudo, eu não via aquela felicidade que irradia do olhar e do sorriso das noivas. Foi então que a Isabel disse à minha namorada, hoje minha consorte: «Sabes, o casamento pode ser “um momento de sonho”, um objectivo desejado que se alcança, um projecto ambicionado que concretizamos, ou então, apenas uma etapa e uma necessidade da vida…»
Não entendi. 
Este relato, porém, corresponde, apenas, a um sonho. A minha consorte, apesar de ser amiga da Isabel, não participou nem foi convidada para o seu casamento e eu desconheço, em absoluto, quando, com quem e onde ela casou.
Esse fim-de-semana foi longo, pesado e doloroso…


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sábado, 27 de maio de 2017

sexta-feira, 26 de maio de 2017

E, lá fui sobrevivendo na vida militar…


…Continuando…

[ Continuando a narração, tão fiel quanto possível, da minha verdadeira história de vida, cuja empresa me propus aqui verter em prosa, eis-me aqui, hoje, sem grande vontade de continuar, sem objectivos, desapontado nos efeitos e  afastado dos fins que almejava.
Desde o dia 16 de Fevereiro (data em que iniciei esta narrativa) até hoje não obtive nenhuma mais-valia. Pelo contrário, estou hoje muito mais desapontado do que antes, seja pelos reparos que tenho recebido, seja pela falta de efeitos psicologicamente positivos.]


Como em tudo na vida, o que custou mais foi a adaptação ao ritmo, às exigências e às peculiaridades da vida militar.
A Marinha Portuguesa não era particularmente exigente em termos de treino físico. No fundo, os primeiros meses foram, apenas, a continuidade da vida de estudante.
Embora tivesse interrompido os estudos na vida civil (no ano 1985/86), aquilo que fazia na tropa era, observadas as barreiras e medidas as distâncias, o mesmo que fazia antes, enquanto estudante.
O que verdadeiramente me penalizava era a separação do meu “habitat natural”.
Nesse tempo eu não tinha nenhuma notícia da “diva Isabel”. Apesar disso, dedicava-lhe grandes divagações no meu “diário de bordo”. Embora de forma virtual, muitas vezes confessava-lhe aquilo que mais me apoquentava, as minhas angústias, os meus lamentos, partilhava com ela a parte mas secreta da minha vida, como se a tivesse junto a mim. Ela era o farol que me mantinha seguro, vivo e sem medo.
Dela tinha apenas a fotografia (que aqui publiquei, no Post 14). Tive-a comigo em Vila Franca de Xira. No entanto, um pequeno incidente levou a que eu a trouxesse de volta para local seguro.
Certo dia, um “filho da escola” (um alentejano que com uma auto-estima que superava a Torre Eiffel) pegou na foto que eu tinha no meu cacifo e fez questão de a mostrar, enquanto publicitava: «malta, está aqui a apaixonada do *******!»
Escusado será dizer que a foto pulou de mão em mão, entre os presentes na coberta (“coberta” era o termo que se usava na Marinha para designar o alojamento dos militares – no exército era conhecida do “caserna”) – felizmente este incidente aconteceu no final do jantar, numa hora em que pouca gente estava presente.
Ainda bem que ele disse “a apaixonada” e não “a namorada”. Assim não tive que o desmentir.
A minha namorada de então, hoje minha consorte, escrevia-me com frequência. Eu, porém, escrevia-lhe muito menos. Comecei a sentir-me um ingrato, um indigno da dedicação dela. Na minha forma de ver, ela merecia alguém melhor do que eu. 
Por essa altura o meu pai, que desde o seu tempo de tropa sempre teve uma saúde precária, adoeceu gravemente. Juntando todos os problemas, o meu namoro tornou-se instável e deu azo a algumas (pequenas) aventuras. No fundo foram apenas “umas férias”, pois acabei por regressar, de forma que ainda hoje ela comparte comigo a vida, as venturas e as desventuras. 
E, ela nem sonha que eu estou a escrever estas palermices…  
…/…


quinta-feira, 25 de maio de 2017

Reeditando um Post antigo...

Há bastante tempo escrevi e publiquei isto...


A minha triste realidade, num pobre soneto...


Por destino, um inútil desvalido!...
Eis aqui um rude farrapo humano;
Visto por meio mundo como insano,
Para o resto, sou vil e atrevido.

Da sorte, sou órfão decano.
Feliz, só no amor dado e repartido.
Não há História que o tenha recebido,
Salvo em seus duros golpes de tirano.

Sorri-me o peito, dando sem pedir...
Mas sempre herdeiro fui da ingratidão.
Atropelei meus sonhos, por repartir;

Colhi mágoas, fracasso e desilusão.
Eis-me aqui, sucata podre a sentir  
Vazio e desalentado o coração… 

                                       Sei lá


(Um grande "Bem-haja!" a cada uma das almas generosas que fazem a esmola - e o sacrifício - de visitar este rudimentar blogue!)

domingo, 21 de maio de 2017

O primeiro sonho com a Isabel, na minha vida militar…


…Continuando…
«
Os meus primeiros dias de tropa foram muito difíceis.
Durante o dia, entre a azáfama e a expectativa do que me iria acontecer a cada momento, as horas iam passando. À noite, quando tudo ficava em silêncio (a hora do silêncio – às 22 horas – era para cumprir religiosamente), começava um tempo de tormento. Então, eu já não estava num quartel, estava algures entre o purgatório e o inferno.
Nesse quartel, dormíamos em beliches de três andares. A mim coube-me, em sorte, um terceiro andar – era um lugar infeliz, junto a uma janela, por onde entrava vento e uma quantidade impressionante de insectos. Apesar disso, eu preferia esse lugar e, curiosamente, era um dos menos atacados pelos mosquitos e outros molestos seres, uma vez que o vento os afastava de mim.
Numa dessas primeiras noites no Grupo nº 1 de Escolas da Armada, em Vila Franca de Xira, eu tive o primeiro pesadelo com a Isabel. Ela estava numa fazenda, entre cavalos. Eram animais semi-selvagens e perigosos, a investir sobre ela. Eu via e ouvia-a gritar desesperadamente, pedindo socorro e tentando proteger-se com uma tocha, cujo lume se extinguia rapidamente. 
Além dos cavalos serem animais que me assustam, eu estava a assistir a esta dantesca e desesperante cena, dentro de uma área (parecida com o meu quartel) cercada com grades de ferro, intransponíveis em altura e indestrutíveis em robustez.
De repetente, um cavalo com ar quase mefistofélico apoia-se nos membros posteriores e levanta-se, de forma aterradora e irada, sobre a Isabel, com as patas dianteiras em riste, de boca aberta, espumando de fúria, mostrando uns descomunais e ameaçadores dentes… a Isabel cai…
Eu tentava gritar desesperadamente: “Não!... Levanta-te, por favor não desistas!...
Não sei se eu cheguei a gritar, efectivamente, durante este pesadelo, mas, pelo que percebi, estava a agitar-me convulsivamente na cama, a ponto de um colega me acordar e perguntar: «Que se passa contigo, pá? Estás bem?»
Acordei ofegante, a soar e com uma dor deprimente no peito. Agradeci ao piedoso condiscípulo (“filho da escola”, como se dizia na Marinha) pela nobreza do seu companheirismo e generosa solidariedade que demonstrou com o seu acto. No fundo, embora não lhe tivesse dito, agradecia-lhe por me tirar daquela penoso cenário.
Levantei-me, fui à casa de banho beber água para aliviar a dor que sentia no peito. Molhei a cara e não enxuguei, não fosse alguma lágrima aparecer nos meus olhos e macular a credibilidade viril de um duro, robusto e heróico marinheiro. A água não lava mágoas, mas pode ajudar a disfarçá-las.
O plantão que estava de serviço, sabendo que eu bebi bastante água e vendo-me de cara molhada, virou-se para mim e disse: «hoje meteste-te  no álcool e bebeste demais, “filho da escola”… isso chama-se, início da ressaca…»
Eu, muito senhor de mim, disse apenas: «acontece!...»
Mal soou o “toque de alvorada” [o toque (de cornetim) era dado por um altifalante – o ITO -, seguido-se a instrução: “Atenção guarnição: Alvorada! Alvorada!” – hoje recordo tudo isto com imensa saudade], o clemente camarada que viera em meu socorro durante a noite, aprontou-se a saber se eu estava bem e o que se tinha passado comigo.
Agradeci, mais uma vez, e desculpei-me com as melgas, os mosquitos e outras infames bichezas que nos perturbavam a noite.
Não posso terminar este Post sem aqui deixar expressa a minha profunda gratidão, o meu “bem-haja” e os votos de que esse “filho da escola” (que eu apenas conhecia por “Viseu”) tenha sido uma pessoa bafejada pela sorte, ao longo de toda a sua vida. Era uma “alma boa”, daquelas que raramente se encontram num ambiente militar, pois, nos dias seguintes, movido por um superior espírito de solidariedade, oferecia-me repelente para os mosquitos.  
O meu mal, contudo, era outro…
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quinta-feira, 18 de maio de 2017

Eis-me marinheiro no mar tormentoso da saudade…


…Continuando…

Como dizia no Post anterior, entre o início de Agosto de 1985 e finais de Julho de 1987 fui militar. Cumpri o Serviço Militar Obrigatório na Armada – Marinha de Guerra Portuguesa.
Embora eu reunisse todas as condições para adiar a incorporação no serviço militar, não o fiz. Certamente, se o tivesse feito não teria sido chamado a cumprir o serviço militar que, nessa época, era obrigatório. Como eu era estudante, poderia ter evitado perder dois anos de vida no mundo militar.
Hoje reconheço que foi um experiência inigualável e enriquecedora em todos os aspectos. Contudo, esses dois anos que passei na vida militar tiveram algum impacte no desenrolar da minha história de vida.
Nos primeiros dias de Agosto de 1985 saí de casa, de mochila às costas, rumo ao Centro de Recrutamento da Armada que, nessa data, funcionava em Alcântara – Lisboa. Relembro-me, perfeitamente da cena da minha partida. Acredite-se ou não, estou a revivê-la neste momento em que a recordo, e as lágrimas galgam-me a face. Recordo a expressão, os gestos e as palavras do meu falecido pai, as lágrimas da minha mãe e o sufoco que me apertava o peito. Eu fazia um esforço hercúleo para me mostrar sorridente, determinado e forte.
Não vou aqui falar desse assunto. É parte de uma outra história de vida. Quiçá um dia narre essa parte da minha vida, mas não será agora.
Saído de casa, enquanto caminhava sozinho para o autocarro, recordo-me, mais do que tudo, da minha preocupação com os meus pais e deste pensamento que expressei, falando sozinho: “acabou-se o tempo de menino mimado… daqui pra a frente não posso contar mais com a protecção dos pais… agora, a vida é a sós e por minha conta e risco!”
Lá fui caminhando.
Tomei algumas decisões de última hora: escrever um diário de bordo, contando tudo o que se passava comigo na vida militar; regressar a casa todos os fins-de-semana que pudesse; não ser um fardo para a minha namorada (se ele entendesse deixar-me, eu aceitaria e compreenderia); estivesse onde estivesse e fossem quais fossem as alterações a que ficasse sujeito, o serviço militar nada mudaria na minha vida…
Cumpri, mais ou menos, estas minhas decisões de última hora.
O diário de bordo começou a ser escrito mal entrei no autocarro, seguiu no comboio e continuou, diariamente e de forma fiel, até finais de Maio de 1987. Esse diário já não existe. Nele eu expunha pormenores tão íntimos, tão sentidos e tão profundos que decidi queimá-lo. Restaram apenas algumas folhas apensas que eu escrevia quando não tinha comigo o caderno que usava como registo desse diário.
As saudades começaram nesse mesmo dia – 5 de Agosto de 1987.
Tinha saudades de tudo: dos meus pais, de casa, dos poucos amigos que tinha, da minha aldeia, da paisagem, da minha namorada, da terra da “princesa Isabel”… de tudo, até das pessoas de quem eu não gostava. Além das pessoas que ficavam para trás, uma das poisas que mais me custou perder foi o recanto solitário, mas aconchegador, do meu quarto. Sentia-me, mais uma vez, um perdedor um desgraçado.
Nesses primeiros dias, nos quais a saudade mais apertava e em que me sentia um desterrado, fui buscar um pouco de conforto e alento num facto muito simples – sentia-me igual à Isabel. Tal como ela eu deixara tudo e fora para uma terra estranha, entre estranhos, viver de improviso, receoso do que aconteceria a cada instante e teria de reconstruir tudo de novo. Sentir-me igual à ”minha princesa” em alguma coisa, mesmo que fosse algo de mau, era um privilégio para mim. Isso tanto me animava como me gerava a maior amargura. Encorajava-me por me sentir igual a ela. Ao mesmo tempo gerava em mim uma angústia desmedida, por imaginar que a minha princesa tinha sofrido, que tinha sentido tudo aquilo que eu sentia.
Imaginava que ela sofreu muito quando, tal como eu, teve de se adaptar a uma nova forma de viver, num lugar estranho, entre gente estranha, estabelecer novas relações de proximidade e/ou de amizade, sem o conforto do seu espaço, da sua casa, da sua família.


Atormentava-me mais imaginá-la frágil, desamparada, infeliz e numa situação parecida com a minha, do que todas as minhas saudades.

Doía-me tanto imaginá-la a viver essa situação, pelo facto de saber que ela sofreu, que esteve triste e frágil sem que pudesse fazer nada para a ajudar, que eu adormecia com os olhos rasos de água, com uma tristeza indescritível, com vontade de morrer.
Nessa época nasceu em mim um pensamento que sempre me mortificou: “ela partiu, sofreu muito quando partiu e, infelizmente, nunca mais regressará definitivamente!”
Creio que ninguém consegue imaginar o que este pensamento sempre me fez sofrer.
Foi neste cruel ambiente que eu passei os meus primeiros dias de tropa. Não será de estranhar que eu sonhasse com ela, frequentemente.

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quarta-feira, 17 de maio de 2017

Da desilusão à estabilidade dada por uma namorada sensacional…


…Continuando…

[Havia já decidido terminar este blogue.
Criei um novo blogue onde compilei tudo o que escrevi sobre esta minha história de vida.
Embora este blogue tenha os dias contados, há algo que ainda gostaria de postar aqui...]

Contava, nos Posts anteriores, que escrevi várias cartas à “minha diva Isabel”, mas nunca saberei se ela leu essas minhas cartas, se sabia que eram minhas, se ficou furiosa comigo, se me achou um imbecil ou simplesmente se não lhes deu importância.
Estas eram algumas das perguntas que hoje gostaria de fazer-lhe… Infelizmente, isso nunca será possível.

Contava, também, que em meados de 1983 me aproximei de uma miúda simpática, vizinha e amiga de infância da Isabel. Mais uma vez a minha vida foi influenciada por essa "mulher-miragem", semideusa ou  o meu calvário; dona dos meus sonhos ou simples ou um simples espinho que se cravou no meu peito... Como foi possível que toda minha vida tenha dependido dessa "divinal Isabel" que nunca quis saber se eu existo? 

Foi nesse ambiente que eu fiquei ancorado na freguesia da “minha diva”, perto da sua casa e com uma sua amiga de infância.
Embora com alguns interregnos (por vezes, mais ou menos longos), alguns períodos de incertezas e em que a ruptura definitiva esteve eminente, com algumas aventuras a que chamaria mais de “desventuras”, essa mulher acabou por ser (é) o meu grande porto de abrigo, até hoje. 

Como já disse, brindou-me a vida com uma mulher fantástica a todos os níveis, esposa excelente, um companheira irrepreensível, uma mãe extremosa… enfim, tudo o eu não esperava da vida e, quiçá, nem merecesse.

Por esta altura, também, eu passei a estudar em fora – inicialmente, na minha sede de distrito. Embora regressasse a casa todos os dias, o tempo disponível tornou-se menos. Contudo, os fins-de-semana continuaram com o mesmo ritmo.

Entretanto, deixei de acompanhar, com tanta frequência, o meu grupinho de amigos. Curiosamente, talvez por influência minha, nesta altura o Xico ficou interessado na Isabel.

O grupinho só se reunia, esporadicamente, à noite, no café Galocha.  

Os dias foram passando, as semanas sucediam-se e o meu envolvimento com aquela miúda que viria a ser minha consorte foi sendo aprofundado.

Mais de uma vez senti que também não merecia esta miúda. Ela, porém, era uma das pessoas mais compreensivas e generosas que eu havia conhecido.
Muito educada, responsável e paciente q.b., não sei que qualidades viu em mim, mas foi tolerando os meus devaneios. Assim, mesmo quando me afastava, eu acabei sempre por regressar.

Não esqueci a “diva Isabel”, mas senti-me reconfortado com essa miúda espectacular.

O tempo foi passando. Nunca mais vi a Isabel. Eu tentava não ser muito óbvio no interesse em saber notícias dela. Soube, porém, que ela tinha partido – era o adeus definitivo a toda a esperança de voltar a vê-la.
Restava conformar-me e manter a melhor imagem possível dela. Além das recordações que sempre guardei na memória, tinha uma foto que era a mais preciosa relíquia de que era guardião.

Em meados de 1985 (meses de Junho e Julho), passei por um período difícil, com sonhos (por vezes pesadelos) constantes, onde a Isabel aparecia, ora a despedir-se, ora a afastar-me dela, ora a dizer que fazia questão em comunicar-me que era muito feliz (isto voltou a repetir-se nos anos seguintes, em diferentes épocas do ano). Eram períodos de verdadeiro tormento para mim, só amenizados pelo carinhoso colo da minha namorada de então, minha consorte de hoje.

Nos finais de finais de Julho de 1985 fui chamado a cumprir o Serviço Militar Obrigatório, na Marinha de Guerra Portuguesa…

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