sexta-feira, 9 de junho de 2017

No meu "vale de lágrimas" surge um raio de sol …


…Continuando…

Terminei o Post anterior numa data que preferia apagar na minha existência ou olvidar definitivamente – o início do ano de 1990.

Em meados de Janeiro de 1990, sem que nada o fizesse prever, o mundo desabou abruptamente sobre mim. Inesperadamente faleceu o meu  Querido Pai.

O patriarca e grande aglutinador da minha família, uma pessoa com uma alegria e um sentido de humor do tamanho do mundo, muito dado à música e às artes cénicas, com uma estranha calma da têmpera do aço, muito ponderado, apreciador declarado e inabalável das coisas belas, um lutador intrépido pelos seus ideais, um verdadeiro “Pai-Amigo” e o meu único modelo, partiu aos 64 anos de idade. 
Eu não fiquei apenas órfão, fiquei moribundo, meio-morto. Nunca estive tão solitário e tão desprotegido. 

A forma como a minha família se comportou comigo, nesse fatídico dia, deixou-me ainda mais debilitado, inconformado e num sofrimento atroz. Pesa-me muito admitir e confessar isto, mas nesse dia percebi que os meus irmãos tinham muito pouco apreço por mim. Com poucas excepções (somos sete irmãos), também não foi grande o sofrimento dos meus manos pela partida do meu Querido Pai (era bem maior a preocupação deles com assuntos económicos e logísticos).  

Foi o momento mais difícil da minha vida.

Infelizmente, no seio da família alargada e entre os amigos (se alguns tinha) não obtive nenhuma forma de conforto.

A única fonte incondicional de conforto e ternura, o único ombro-amigo onde pranteei abastadas e dolorosas lágrimas, a única pessoa que apareceu em meu amparo e não arredou pé do meu lado, foi a minha namorada.

A minha vida transformou-se, novamente, num verdadeiro caos. E, nas semanas seguintes, quando regressei ao trabalho, passei momentos muito difíceis. Morava sozinho num apartamento, sem amigos ou conhecidos nas redondezas. Todo o tempo que tinha disponível fechava-me em casa e derretia-me em lágrimas e lamúrias. Invocava o meu Pai e, incessantemente, a Isabel – as duas pessoas que, paradoxalmente, representavam, para mim, o que havia de melhor no mundo e, simultaneamente, nestas condições, a maior fonte de sofrimento. Perdi as pessoas que desejava ter a meu lado.  

Os dias foram-se sucedendo e à dor que sentia veio somar-se um sentimento agudo, incisivo e angustiante de culpa. Sentia-me um traidor, um ingrato, um execrável bandido para com a minha namorada, que foi a única pessoa carinhosa e voluntariamente disponível para me apoiar. Não era justo que eu passasse o tempo a invocar a Isabel. Era a minha namorada que deveria estar sempre no meu pensamento, não a Isabel. O grande problema (que me atormentou a vida toda) é que eu não conseguia esquecer a Isabel. Nunca. Por mais que tenha tentado… não há fórmula mágica para esquecê-la.

Nesta época ganhei um vício terrível, que ficou e que não consigo largar (e que muito me incomoda) – falar sozinho.

Debilitado, amargurado, desiludido e sem encontrar algo que desse sentido à vida, e depois de pensar várias vezes em desistir de viver, creio que Deus me estendeu a mão, através da minha namorada. 
Num domingo, quando nos deslocávamos da minha casa para a casa dela, ela olhou-me bem fundo nos olhos e disse-me: «quero dizer-te uma coisa importante… eu quero partilhar o resto da minha vida contigo… casar contigo… acho que está na hora de pensarmos nisso!»

O sorriso que ela irradiava com o seu olhar pareceu-me o mais caloroso e abençoado raio de sol no “vale de lágrimas” em que eu vivia.

Nesse momento, senti o mundo parar à minha volta e o chão fugir-me debaixo dos pés. Mas, segundos depois, senti dentro de mim uma voz a dizer: «Ela tem razão… vai em frente!».

…/…


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