domingo, 16 de julho de 2017

(Post reeditado) Um ponto de viragem e o emergir de uma vida nova …

[Terceiro assunto que aqui gostava de relatar - cont.]

…Continuando…

Como narrava no Post anterior, após finais dos anos 90 a minha história de vida sofreu uma grande evolução, mas no sentido regressivo - para pior.
Uma sequência de acontecimentos mais ou menos interligados e cronologicamente encadeados tiveram, sobre mim, um efeito demolidor.
Não sofri de uma depressão, mas antes de uma desilusão com a vida.
Há um tempo para tudo. Até para nos autocondenarmos.
A parte mais infausta e dolorosa dessa época foi a sensação de culpa. Sou daquelas pessoas que assume sempre, com exclusão de outrem, a culpa dos seus insucessos e nunca vê responsabilidade ou contributo relevante dos demais, nos seus fracassos e nos desaires  da vida. Para mim, os outros nunca têm culpa do que eu decido ou do que eu faço. Pertenço ao grupo daqueles que mais depressa imputam o destino do que uma pessoa.
Nos finais de 2014 e inícios de 2015, há uma evolução brusca dos acontecimentos.
Debilitado e desgastado, surge uma catadupa de problemas de saúde.
Há momentos na vida em que a morte, além de não nos assustar nada, pode parecer uma saída fácil e airosa para uma situação complicada. Desfortunadamente ou não, já fruí várias vezes dessa sensação, mas sobrevivi.
Na sequência cronológica desta minha história de vida, esse momento foi o início de um volte-face total – a minha vida sofreu uma inesperada rotação de 180 graus.
Dois motivos me seguraram à vida. O primeiro, e mais determinante dos dois, foi uma decisão que eu tomei no dia em que tive plena consciência do meu real estado de saúde. Decidi, nesse dia e nesse momento, que não podia morrer sem voltar a ver a Isabel. Fosse pessoalmente, fosse em fotografia, fosse em vídeo, fosse como fosse. O meu objectivo era ver como era agora a eterna princesa que eu conheci e que já não via há mais de 30 anos.
Sobre o segundo motivo manterei, por agora, reserva. Talvez ainda fale sobre ele, mas não o farei neste momento.
Nesse meu mundo cinzento e cada vez mais escuro, de repente, com uma simples ideia, tudo ganha cor, sentido e alento. Mais uma vez, a etérea imagem dessa mulher impossível e distante, determinava uma alteração de grande vulto, na minha vida.
Nesse mesmo dia começou a transformação.
Segui à risca todos os protocolos terapêuticos. Paralelamente, Iniciei, por conta própria e sem ajuda, um processo de recuperação da minha imagem e condição física.
Menos de um ano depois, havia perdido mais de 40 kg de peso, recuperado toda a mobilidade, toda a vitalidade e toda a vontade de viver. 
Voltei a algumas das actividades culturais de antes, passei a ver o mundo de forma muito diferente, a vida com outro valor, os amigos com outra importância. Alterei toda a minha filosofia de vida. Voltei a alguns dos meus passatempos preferidos.
Recomecei a viver.  

…/…

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Incidente Importante - III (A minha espiral regressiva - naufragando…)

…Continuando…
[Terceiro assunto que aqui gostava de relatar.]

Fruto das circunstâncias que relatei nos “Posts” anteriores, por essa altura, comecei a fazer uma análise retrospectiva de toda a minha vida. Chegou o tempo de sentir que falhei sempre e em tudo. Tudo o que fiz estava errado.
Fruto desse balanço da minha vida, comecei a sentir-me fragilizado e, sobretudo, um trapo amarrotado e inútil que andava a sobejar e estorvar neste mundo. 
Tomei consciência de que fui o único culpado da minha vida ser uma imbecilidade. Eu podia e devia ter procedido de forma diferente. No caso da Isabel, eu fui tão imbecil que deitei tudo a perder – estive tão próximo e afastei-me.
 Agora que tudo estava irremediavelmente perdido e depois de conhecer melhor a sua família, percebi que ela era mais frágil do que eu imaginava e que a vida dela também não foi um conto de fadas.
Penalizava-me, de sobremaneira, saber que nem sequer a voltaria a ver. Havia já tempo que a procurava…  
Desafortunadamente, para ajudar à minha derrocada, comecei a sentir algumas divergências com a minha consorte. Até com ela eu era um desastre…
Daí até perder o gosto por quase tudo, foi um pequeno passo.
Um dia recebi uma notícia absurdamente estúpida: o Luís, padrasto da Isabel, dera um tiro na cabeça. A bala ficou alojada no cérebro, mas ele não morreu (ainda viveu vários anos e só viria a falecer em 2007).
Perante um mundo desprovido de interesse e cada vez mais vazio e absurdo, eu fui arrumando na prateleira mais alta da minha vida (a mais inacessível e onde se colocam as coisas que não pensamos voltar a usar – por isso lhe chamo a “antecâmara do lixo”) praticamente tudo que eu gostava.
Rompi, definitivamente, com tudo aquilo que me dava alguma alegria e prazer: actividades/rotinas, passatempos, desportos, actividades culturais, convívio com amigos, preocupação com a minha saúde, a minha imagem… Tudo, tudo ficou na prateleira.
A minha vida resumia-se a um algoritmo simples: casa - trabalho/ trabalho – casa; comer; descansar e pouco mais.
Nada do que me rodeava despertava em mim grande atenção ou interesse. Eu sentia-me absurdo, estúpido, desnecessário, sem valor, sem utilidade, uma sucata nojenta e uma peça a mais num puzzle desorganizado. Não tinha nenhum motivo para lutar, para vencer ou para melhorar a minha vida.
Se nada me metia medo, também não encontrava nenhum motivo para me defender de nada ou aproveitar a vida.
Abandonei-me, abandalhei-me, “ajavardei-me”.
Contudo, nunca fui pessoa de grandes vícios. Nunca bebi, nunca fumei, nada de “substâncias estranhas”, nada de maus vícios, mas praticamente hibernei.    
Assim vivi uns anos.
A saúde degradou-se. Nada de ir ao médico...
Não tinha nenhum cuidado com a alimentação e abusava de coisas doces.
O meu peso aumentou exponencialmente (ultrapassei largamente os 120Kg). Perdi mobilidade, agilidade e vontade de fazer qualquer esforço.
Esta situação prolongou-se no tempo. Com o desaparecimento de alguns amigos, aumentou a minha queda.
Em Janeiro de 2013, inesperadamente, faleceu o António (Tone), irmão da princesa Isabel. O Tone assentara e estabilizara finalmente a vida com uma companheira espectacular. Acabava de ser pai de trigémeos. Sentia-se repleto de energia e de saúde. Era uma pessoa cheia de ideias e projectos. Na noite de 12 de Janeiro de 2013 sentiu-se mal, conduziu o seu carro até ao serviço de urgência do hospital e, infelizmente, faleceu poucas horas depois… foi o coração que o traiu – o mesmo problema que levou o seu pai e o seu irmão Joaquim.
Infelizmente eu não pude ir ao seu funeral.
Além de perder um amigo, cortava-se aqui a única ligação que eu tinha ao mundo da “minha eterna princesa”.
Juntando tudo isto, mudei o meu comportamento típico – em lugar de lutar, protestar, reivindicar, exigir e discutir, passei a calar-me, “amuar” e passar longos períodos sem falar, de preferência sozinho.
A minha espiral regressiva bateu no fundo no início de 2015…

…/…

sexta-feira, 7 de julho de 2017