segunda-feira, 26 de junho de 2017

Incidente importante - I…

 (Estas postagens encontram-se também publicadas em outro blogue que iniciei)

... Continuando...
[Primeiro assunto que aqui gostava de relatar.] 

 A partir de finais dos anos 90, eu era já um grande amigo do irmão mais novo da Isabel. António era o eu nome - Tone, para o amigos. 
Dos quatro irmãos que a Isabel tinha, ele era o mais novo, embora mais velho do que a princesa. Também ele havia estado emigrado na Suíça. Na sequência de um acidente que tivera lá, na Confederação Helvética, decidiu regressar definitivamente à sua terra natal. Fez muito bem. Foi uma sábia decisão.
Construiu uma vivenda perto da casa da sua mãe e aí passou a viver.

Passamos a privar bastante em razão de possuirmos alguns hobbies e interesses comuns, nomeadamente a electrónica. Tornou-se habitual e comum ele frequentar a minha casa ou eu ir até à casa dele. A elevada estima e amizade mútua foi sempre, sem dúvida, muito mais engrandecida da minha parte, em razão de ele ser irmão da mulher mais importante do mundo.

Como é comum entre os amigos, tudo podia ser tema de conversa.

Certo dia, numa conversa corriqueira, o assunto resvalou para uma questão que eu nunca tinha abordado com ele – o tema da sua irmã veio ao de cima. 
A Isabel era a única irmã, os restantes quatro eram barões. Infelizmente, já só eram três, pois um dos irmãos, de nome Joaquim (José Joaquim) havia falecido pouco antes da data deste episódio que aqui estou a narrar. Aliás, foi por aí que iniciámos a nossa conversa. O Joaquim faleceu na Suíça, inesperadamente (vitimado por um problema cardíaco), em Novembro de 1998, com apenas quarenta anos de idade.

Como estávamos a falar da família dele e da Suíça, foi o Tone que chamou à colação o assunto da irmã, questionando: «Escuta, tu ainda chegaste a namorar com minha irmã… não foi?»

Eu, apanhado de surpresa, confessei-lhe a mais cristalina verdade: «Infelizmente não chegamos, propriamente, a namorar… isso era o que, nesse tempo, eu mais queria…»

Ele, perspicaz e directo como sempre, atalhou: «Bem, se não foram “propriamente namorados”, tu andaste “atrás dela” e gostavas dela…»

Fiquei um pouco atrapalho e com a voz a enovelar-se no peito. Mas, com uma réstia de coragem, consegui dizer-lhe: «Sim, gostava e… nem tu imaginas quanto!...»

Aquilo que ele me disse de seguida mexeu comigo de uma forma tão profunda, violenta e duradoura, que foi um dos motivos que me levou a escrever esta história de vida.

As palavras dele foram estas: «Conhecendo-te bem como eu te conheço, digo-te que tu não imaginas como poderias ter sido importante para ela… como a vida dela poderia ter sido diferente… e bem mas fácil!…»

Fiquei sem palavras. Os olhos turvaram-se e não tive coragem, nessa hora, de lhe pedir que explicasse o sentido das suas palavras.

Ele percebeu o meu estado alma e mudou de conversa, dizendo apenas: «Deixemos isso!».
Eu nunca mais esqueci este verdadeiro “incidente”, quer por não ter percebido o sentido e abrangência das suas palavras, quer pela forma e contexto em que se inseriu a nossa prosa.

Fui protelando, sucessivamente, uma conversa sobe o assunto, fosse por falta de oportunidade, fosse por falta de coragem minha. Desafortunadamente, demorei demais.

Mas, os incidentes de “emoções fortes” não tinham terminado…
…/…

domingo, 25 de junho de 2017

(Cont...) Tempo de decisões, partilha e “mudança para sempre igual”…


…Continuando…

1990 Foi um ano de extremos: aconteceram coisas muito más, mas, em contrapartida, tomei boas decisões.

A decisão de partilhar conjugalmente a vida com a minha namorada foi a minha bóia de salvação.

Sou daquelas pessoas que, quando toma uma decisão, seja boa ou má, segue-a e assume todas as responsabilidades a ela inerentes. Como ia a dizer no “post” anterior, tomei uma decisão e cumpre-me respeitá-la, sejam quais forem as circunstâncias e as consequências. A decisão que eu tomei foi esta: jamais a abandonar a minha “consorte” e ser-lhe sempre fiel. Decisão tomada, ponto final!

Assim foi e sempre assim será, no que à minha pessoa diz respeito. Peço a Deus que me ajude e dê saúde mental para manter a minha decisão.

No mês de Agosto desse ano de 1990, eu e a minha namorada unimos perante a lei, a sociedade, a comunidade e Deus, as nossas vidas. Casamos religiosamente na igreja paroquial da terra dela.

A partir dessa data, a minha vida funde-se com a da minha consorte, nos bons e maus momentos, nas grandes decisões e tendências, tal como nos mais insignificantes pormenores. 

Há, contudo, um detalhe que sempre mantive na mais privada reserva, não fui capaz de partilhar, nunca tive coragem de discutir com a minha consorte, não imagino como poderia fazê-lo, não me atrevo a imaginar a reacção dela e tenho medo de pensar nisso – é que, apesar de toda a cumplicidade, da plena partilha e união que nos preenche como casal, eu nunca consegui esquecer a Isabel. E, sempre que algo corre mal entre nós, sempre que eu me sinto ferido, magoado, injustiçado ou incompreendido, é na Isabel que busco refugio. Invocando-a “virtualmente”, falo com ela, confesso-lhe as minhas mágoas, partilho com ela aquilo que nunca seria capaz de fazer com criatura alguma.

É uma loucura e uma estupidez, eu sei, mas eu não consigo afastar isto da minha vida.

Retomando o fio da minha história de vida.

Por uma questão de reserva e respeito para com aminha consorte, não vou contar como foi a minha lua-de-mel, embora me apetecesse, porque, infelizmente, até aí fui (fomos) pouco bafejado pela sorte.   

Adiante…
Dois anos depois, em meados de 1992, nasceu o júnior mais velho.
Algumas coisas mudaram para nunca mais serem iguais. Porém, aqueles aspectos que eu mais queria que mudassem, desafortunadamente, mantiveram-se inalterados.

Ou seja, no fundo tudo mudou para um estádio em que ficou igual àquilo que já era antes.

Até ao advento do ano 2000 foram os melhores anos da minha vida. Vivíamos num Portugal mais livre do que hoje, mais justo, mais fraterno, mais amigo, menos hipócrita, com pessoas menos egoístas, muito menos velhacas, menos fechadas e, também, um ordenamento político, social e jurídico-legal infinitamente menos execrável do que aquele que hoje nos oprime e escraviza. Foi tempo de passear, viajar, conhecer e “gozar a vida”.


A partir de finais de 1999, mas sobretudo após o ano 2000, existiram três factos importantes que gostaria de aqui relatar. Falar sobre isso poderá fazer bem ao meu ego. Permitirá, assim o espero, exorcizar algum mal que ficou no peito. Não sei se serei capaz de falar sobre isso, mas vou tentar.  
 .../...

sábado, 24 de junho de 2017

Adiando o fim...

Efectivamente este blogue já não faz sentido.

É absurdo eu estar aqui a plasmar a minha vida privada.
 São assuntos particulares que não interesam a ninguém e é impossível que os intervenientes acedam a esta "História de Vida",  Por isso, este blogue já devia ter terminado.  Porém, porque quero fazer um backup de tudo o que aqui foi publicado, continuará online mais algum tempo.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Hoje é um dia muito especial.

22/06/2017 - Hoje é um dia muito especial.

Há 36 anos, neste dia, ocorreu um episódio que marcou e influenciou toda a minha vida.  Propus-me narrar, de forma tão exacta quanto possível, todos os acontecimentos reais que ocorreram nesse dia, as principais implicações ao longo da minha existência e os factos que sucederam na minha história de vida, desde essa data até hoje, motivados por esse episódio.

Para isso criei este blogue.

Na tarde do dia 22 de Junho do ano de 1981, sendo eu um jovem adolescente igual a tantos outros, inesperadamente, talvez por mero capricho do destino ou por simples acaso, cruzei-me com uma jovem da minha idade, numa avenida da sede do concelho onde morava.

Foi um encontro absolutamente extraordinário para mim.

Subitamente deparei-me, frente a frente, com uma “miúda” diferente de todas as pessoas que eu conhecia, tão maravilhosa, tão fascinante, absolutamente ímpar e tão sublime que me deixou estático. Esse encontro/visão ficou de tal forma gravado em mim que condicionou toda a minha vida, a partir desse instante, até ao presente momento – 22 de Junho de 2017.

Quis o destino que, infelizmente, a minha vida apenas se cruzasse brevemente com a dela, sem ter oportunidade de a partilhar ou caminhar lado a lado.

Sem ela imaginar, sem nada fazer, sem saber que eu existo, foi a pessoa mais importante da minha vida. Mesmo ausente, sem a voltar a ver nem ter comunicação com ela desde 1983, continuou a determinar a minha vida, o “meu futuro”, as minhas decisões e a minha existência.

O seu nome é Isabel. Hoje vive algures na Suíça, perto de Zurique, é casada, tem uma família que eu não conheço.

Desejo, do fundo do coração, que seja a pessoa mais feliz do mundo.

Embora não queira interferir na vida dela (prefiro morrer do que prejudicá-la), o que mais queria na vida era contar-lhe o que ela sempre representou para mim.

Como nunca lhe poderei contar nada disto, fui narrando esta "história de vida" na Internet, por se acaso, algum dia, o mesmo destino que me condenou a viver com a sua imagem no coração mas longe da sua presença tiver a bondade de permitir, que ela leia esta narrativa.

Por mais improvável que seja,  só o destino, o acaso ou ventura poderão fazer aquilo aquilo que não está ao meu alcance. Não posso nem consguiria fazê-lo pessoalmente e não creio que algum dia o possa fazer indirectamente. 
Que Deus te ajude, Isabel, e faça de ti e da tua família as pessoas mais felizes de todo o universo.


Portugal, 22 de Junho de 2017.   

terça-feira, 13 de junho de 2017

E, subitamente, tudo muda…


…Continuando…

Viajei, na “postagem” anterior, pelo ano de 1990, entre uma das datas mais tristes da minha existência e o início de um tempo e de uma vida diferente.

A minha namorada de então, minha consorte de hoje, demonstrou interesse em unir as nossas vidas. Foi a primeira vez que alguém me propôs algo de sério, de marcante e que demonstrava algum tipo de respeito pela minha humilde pessoa. 

Na verdade, saber que a minha namorada estava interessada em casar comigo tornou-se, rapidamente, numa espécie de motivo de orgulho. Afinal eu não eram tão inútil, tão desprezível e tão rude, a ponto de ser indigno de merecer o interesse de alguém. A minha namorada era (e é) uma pessoa muito ponderada e responsável.

Decidimos discutir o assunto do matrimónio de forma séria; primeiro, nas suas implicações e depois, em todos os seus pormenores. Lá fomos concertando, cuidadosamente, todos os aspectos, pesando todas as questões e tomando decisões – pela primeira vez eu decidia questões da minha vida em conjunto com alguém e partilhava problemas, propósitos, incertezas, objectivos e um projecto de futuro.

Entretanto, num desses dias, por mero acaso e ao contrário do que era comum, encontrei a mãe da Isabel (Sra. Gracinda) e o Luís (padrasto da Isabel). Eu não tinha nenhuma proximidade ou confiança com a Sra. Gracinda, embora adorasse a senhora, por ser a mãe da “pessoa mais especial do mundo” e pela sua simpatia. Com o Luís eu tinha alguma confiança. Como nos encontrámos num lugar estranho, entre pessoas desconhecidas, sentíamo-nos muito mais próximos. Falamos de uma infinidade de coisas. Julgo que o Luís estava a tomar algum tipo de medicação da família dos calmantes ou antidepressivos. Isso notava-se de longe, quer na postura, quer na forma como conversava. 

Foi ele que levantou o assunto: «Qualquer dia casas-te e ainda vais ser nosso vizinho!».
Fui sincero: «sim, estamos em pensar casar… mas, em princípio, vamos morar na minha terra…”

Ouvi-lhes (do Luís e da mãe da “diva Isabel”) palavras de incentivo, regozijo e votos de felicidades.

Pela primeira vez a Sra. Gracinda falou-me da Isabel. Embora não dissesse nada de especial, só de ouvir aquele nome mágico, senti um nó na garganta e, se não me tivesse retirado, não teria aguentado sem deixar escapar pelos olhos a expressão mais pura e involuntária da comoção que me invadiu o peito. Comecei a sentir os olhos a turbar-se e, antes que corresse mal, inventei uma desculpa para me retirar.

Infelizmente já faleceram os dois. Como sou crente, cristão e católico, peço a Deus que os acolha em lugar privilegiado no Seu Reino e estejam, juntamente com o meu querido pai, na morada reservada para a eternidade dos bons, dos justos e na gloriosa presença de Deus.

Depois deste “encontro”, que eu adorei, apesar de me ter custado alguns largos e profundos suspiros (e que, hoje, sinto que não aconteceu por simples acaso), senti-me ainda mais orgulhoso e decidido a empenhar-me no casamento.

No domingo seguinte, depois de assentar com a minha namorada mais algumas questões do nosso "consórcio", enquanto regressava a casa tomei uma decisão muito importante…   

…/…


domingo, 11 de junho de 2017

Post Provisório: Uma pergunta


Será que alguém tem paciência de ler esta minha paupérrima redacção?

Duvido que alguém tenha tanta benevolência, longanimidade e “falta de gosto”.

Contudo, deixo no ar uma pergunta (se acaso existir alguém, na blogosfera, que seja tão complacente e clemente que possa responder):

O que faria (quem ler esta história de vida) se fosse a Isabel e estivesse a ler isto?

Mandava dar-me uma grande tareia, não ligava, ou obrigava legalmente a eliminar tudo?


Ficava furiosa ou simplesmente não via mal algum neste blogue?


(Esta postagem será eliminada)

sexta-feira, 9 de junho de 2017

No meu "vale de lágrimas" surge um raio de sol …


…Continuando…

Terminei o Post anterior numa data que preferia apagar na minha existência ou olvidar definitivamente – o início do ano de 1990.

Em meados de Janeiro de 1990, sem que nada o fizesse prever, o mundo desabou abruptamente sobre mim. Inesperadamente faleceu o meu  Querido Pai.

O patriarca e grande aglutinador da minha família, uma pessoa com uma alegria e um sentido de humor do tamanho do mundo, muito dado à música e às artes cénicas, com uma estranha calma da têmpera do aço, muito ponderado, apreciador declarado e inabalável das coisas belas, um lutador intrépido pelos seus ideais, um verdadeiro “Pai-Amigo” e o meu único modelo, partiu aos 64 anos de idade. 
Eu não fiquei apenas órfão, fiquei moribundo, meio-morto. Nunca estive tão solitário e tão desprotegido. 

A forma como a minha família se comportou comigo, nesse fatídico dia, deixou-me ainda mais debilitado, inconformado e num sofrimento atroz. Pesa-me muito admitir e confessar isto, mas nesse dia percebi que os meus irmãos tinham muito pouco apreço por mim. Com poucas excepções (somos sete irmãos), também não foi grande o sofrimento dos meus manos pela partida do meu Querido Pai (era bem maior a preocupação deles com assuntos económicos e logísticos).  

Foi o momento mais difícil da minha vida.

Infelizmente, no seio da família alargada e entre os amigos (se alguns tinha) não obtive nenhuma forma de conforto.

A única fonte incondicional de conforto e ternura, o único ombro-amigo onde pranteei abastadas e dolorosas lágrimas, a única pessoa que apareceu em meu amparo e não arredou pé do meu lado, foi a minha namorada.

A minha vida transformou-se, novamente, num verdadeiro caos. E, nas semanas seguintes, quando regressei ao trabalho, passei momentos muito difíceis. Morava sozinho num apartamento, sem amigos ou conhecidos nas redondezas. Todo o tempo que tinha disponível fechava-me em casa e derretia-me em lágrimas e lamúrias. Invocava o meu Pai e, incessantemente, a Isabel – as duas pessoas que, paradoxalmente, representavam, para mim, o que havia de melhor no mundo e, simultaneamente, nestas condições, a maior fonte de sofrimento. Perdi as pessoas que desejava ter a meu lado.  

Os dias foram-se sucedendo e à dor que sentia veio somar-se um sentimento agudo, incisivo e angustiante de culpa. Sentia-me um traidor, um ingrato, um execrável bandido para com a minha namorada, que foi a única pessoa carinhosa e voluntariamente disponível para me apoiar. Não era justo que eu passasse o tempo a invocar a Isabel. Era a minha namorada que deveria estar sempre no meu pensamento, não a Isabel. O grande problema (que me atormentou a vida toda) é que eu não conseguia esquecer a Isabel. Nunca. Por mais que tenha tentado… não há fórmula mágica para esquecê-la.

Nesta época ganhei um vício terrível, que ficou e que não consigo largar (e que muito me incomoda) – falar sozinho.

Debilitado, amargurado, desiludido e sem encontrar algo que desse sentido à vida, e depois de pensar várias vezes em desistir de viver, creio que Deus me estendeu a mão, através da minha namorada. 
Num domingo, quando nos deslocávamos da minha casa para a casa dela, ela olhou-me bem fundo nos olhos e disse-me: «quero dizer-te uma coisa importante… eu quero partilhar o resto da minha vida contigo… casar contigo… acho que está na hora de pensarmos nisso!»

O sorriso que ela irradiava com o seu olhar pareceu-me o mais caloroso e abençoado raio de sol no “vale de lágrimas” em que eu vivia.

Nesse momento, senti o mundo parar à minha volta e o chão fugir-me debaixo dos pés. Mas, segundos depois, senti dentro de mim uma voz a dizer: «Ela tem razão… vai em frente!».

…/…


terça-feira, 6 de junho de 2017

Os loucos anos 1987-1989…


…Continuando…
[Hoje estou anormalmente chato...]

Estava a narrar, no Post anterior, a minha readaptação a vida civil, depois de ter vivido dois anos como militar da Marinha de Guerra Portuguesa e a minha entrada no “mercado do trabalho”.
O propósito deste blogue é narrar uma parte (e apenas uma parte - a parte sentimental) da minha “história de vida”, tentando ser o mais exacto e objectivo possível. Assim, porei de parte as questões profissionais. Abster-me-ei, por isso, de tecer grandes comentários sobre o que eu penso das relações de trabalho, do “carreirismo” e outras bestialidades, infelizmente muito na moda neste mundo turbo-capitalista, impessoal, egoísta e desumano.  Resumidamente e para atalhar: eu detesto este modelo de mundo em que vivo; detesto a filosofia extremista deste capitalismo materialista; não gosto do modelo de sociedade em que estou condenado a viver e, o pior de tudo, fere-me a forma cega e submissa com que as pessoas aceitam, resignadas e subservientes, a escravidão que lhes é ditada… e, pateticamente, sorriem, aplaudem, seguem religiosamente e agradecem.
Eu sinto-me mais espírito do que matéria, muito mais vida do que economia, mais Homem do que “unidade de trabalho”. Para mim, as pessoas estão antes de tudo, a minha família é o centro de todo o universo e a única coisa que hoje (para mim) conta, verdadeiramente, é desfrutar da vida da forma que eu gosto e não da forma que mais interessa à sociedade – que se dane a sociedade, pois isto é a única coisa que eu levo de ganho deste mundo… só tenho uma hipótese de viver e já fiz disparates a mais.  

Hoje, não alinho em grande parte das teorias modernas, da praxis social adaptada (cerceada de valores e pejada de banalidades), dos conceitos impostos pela "ditadura dos mass media", das convenções popularescas  e da execrável  filosofia do “Maria vai com as outras” (traduzido numa expressão imbecil – “isto agora é assim…”).   


Para ser sincero, não era nada disto que eu queria dizer.  
Adiante…
Entre Outubro de 1987 e finais de 1989, eu fui um verdadeiro “cão vadio”. Não porque fosse um doidivanas inconsequente, tão-pouco por ser um desregrado aventureiro, mas antes por não ter um projecto de vida ou um caminho de futuro delineado.
Era um autêntico saltimbanco. Tudo na minha vida era feito de improviso. Profissionalmente percorri uma parte do país. Sentimentalmente, não sei se era um náufrago, um barco à deriva, ou uma simples folha seca levada pelo vento. Ora desiludido, ora perdido, mas sempre um desprezível cobardolas com o coração seccionado. Se nunca abandonei a minha namorada (hoje minha consorte, mãe dos meus filhos e sol do meu universo existencial), mais do que uma vez me deixei escorregar para “quase-aventuras”, insensatas e sem nexo. Foi uma Anabela que gostava de jogar comigo ao “gato e ao rato” – um dia era “adoro-te”; no dia seguinte era “esquece-me”; foi uma Lúcia, para quem eu fui um “estapafúrdio corsário” (com ela perdi uma disputa: quem casasse primeiro tinha de primeiro tinha de pedir desculpa ao outro); foi uma Cristina que fazia os piores sacrifícios para me agradar, foi uma “Lara”, inconstante e bastante falsa… Contudo, com nenhuma delas tive alguma intimidade de relevo. Paralelamente, tinha um intocável cantinho do coração reservado para a “minha celestial diva Isabel”.
Tudo isto foram devaneios deste palerma, deste imbecil, deste ordinário cobardolas que mantinha (ora interrompia, ora reatava) uma ligação dúbia, inconstante e ténue com uma namorada dedicada, paciente e carinhosa. E, na retaguarda, uma família unida, impecável, calorosa e disponível.
No início de 1990, abruptamente, o mundo desabou sobre mim…

…/…


sexta-feira, 2 de junho de 2017

O regresso, mas nada era como dantes…


…Continuando…


No início do Verão de 1987 aproximou-se o fim do serviço militar obrigatório.
Contemplando o tempo de férias a que tinha direito, ou seja, descontando um mês de férias ao tempo efectivo de tropa, na prática, saí da Marinha de Guerra Portuguesa na primeira semana de Junho desse ano. Passei à “disponibilidade na reversa” (em terminologia militar), mas continuei a comer e dormir no Hospital da Marinha, ainda que fosse já civil, por mais uns quinze dias, por questões académicas. Embora eu tivesse (e tenho) bastante família em Lisboa, entre os colegas militares sentia-me muito muito mais livre e autónomo.  
Passados esses dias, regressei definitivamente à minha terra natal, ao meu “habitat natural” e tentei retomar a vida que tinha dois anos antes. Já não foi possível. Estava tudo mudado.
Pronto, a alegria de regressar à liberdade plena e com a sensação do dever cumprido tornou-se numa desilusão. 
Muitos dos meus amigos já não estavam aqui, tinham casado ou partido por motivos de trabalho. Os lugares que juntos frequentávamos também já não eram iguais – ou haviam já fechado ou tinha nova gerência e o ambiente era totalmente diferente.
Mais uma vez tive de reorganizar a vida social, reconstruir rotinas, reordenar prioridades e, dentro do possível, retomar o que restava do “meu mundo”.
As primeiras semanas foram, incrivelmente, muito difíceis.
Entretanto, comprei uma motorizada nova – uma Sachs V5.
O primeiro passeio foi, obviamente, uma passagem pela casa da minha “diva Isabel”. Eu tinha absoluta certeza que ela estava na Suíça, julgo que estava casada e, imaginava eu, talvez tivesse já filhos. Contudo, isso não era importante. Eu sentia-me “preenchido” se soubesse que ela era feliz. Curiosamente, ao contrário do que era comum acontecer, nesse dia encontrei o padrasto dela, o Luís, mesmo junto à sua casa. Parei e conversamos largamente, sem nunca tocar no “assunto Isabel”. Regressei a casa felicíssimo e realizado.
As semanas seguintes foram de readaptação à liberdade da vida civil e de aventuras.
Sentia-me tão livre, ávido de viver e tão despreocupado que me afastei da minha namorada. Foram mais “umas férias” do que uma aventura.
Assim passou o Verão de 1987.
Em Setembro, na altura das “festas do concelho”, reatei com a minha namorada.
Um mês depois, ainda sem ter terminado a faculdade, ingressei na profissão e na carreira que ainda hoje tenho.

Enveredei por uma profissão que nunca me havia cativado. Também nisso por influência a "minha Diva Isabel" (mas esse assunto fica par outra ocasião).
Amadureci um pouco mais, pois os primeiros tempos voltaram a ser de adaptação, longe do meu “habitat natural”.
Porém, longe de casa e dos amigos, em ambiente “hostil e estranho”, voltou o “síndrome” da minha “diva Isabel”. 

…/…


quinta-feira, 1 de junho de 2017

Um "recuerdo" saído do coração...

[Das poucas coisas que me restam do meu tempo militar, eis um singelo e muito pobre poema. À falta de valor literário opõem-se a imensidão do meu sentimento... juro!]

Da minha janela eu vejo
Uma estrela cintilante
Que no infinito, além, mora.
Quando contigo sonho, noite fora,
Eu pergunto-lhe por ti,
Porque a saudade é enorme.
E ela, silenciosa, piscando os olhos sorri,
Como quem diz: «Dorme! Dorme!»
É àquela estrela solitária,
Imóvel companheira do vazio,
A quem às vezes confio,
Numa confissão diária
Dos meus queixumes de amante:
«Sabes, o meu maior desejo
É que tu levasses um beijo
Àquela em que penso agora!»
E ela, tão silenciosa e constante,
Pisca ternamente os olhos e sorri,
Assim respondendo ao que lhe digo:
«Ela manda outro para ti,
Enquanto dorme e sonha contigo.»

Hospital da Marinha, Lisboa, 06/06/1986