sábado, 25 de março de 2017

Quando se fecha uma porta, Deus abre uma janela…


… Continuando…

Na prossecução da minha narrativa, havia quedado à porta da minha “diva”, mergulhado na mais amargurada e dolorosa decepção.  

O Xico, porém, astucioso e atento, não tardou em descobrir uma janela de esperança que pudesse gerar um paliativo para o meu estado de desilusão. 

Uma das tradições da minha terra natal era (e ainda é, embora em menor grau) a ida à feira quinzenal. Da parte da tarde, a feira funcionava como o grande ponto de encontro da juventude de todo o concelho. Num município iminentemente rural e com meia centena de freguesias, as moçoilas e os rapazes rumavam à feira com a mesma predisposição com que se vai a um concerto, a uma festa social ou a um espectáculo cultural. Ainda hoje, em algumas freguesias, há pequenas empresas que facilitam a ausência dos seus funcionários em dia de feira.

Por uma questão de integração social, também eu participava dessa praxis juvenil, embora de forma menos assídua.
Não padeço de oclofobia, mas sempre apreciei muito mais o convívio dentro de um limitado grupo de amigos, tranquilo e pacífico, onde todos se entendem e podem compartir, positiva e democraticamente, as suas singularidades. Grandes aglomerações de pessoas, muito ruído ou falta de espaço não me cativam. Sempre entendi que para conviver é indispensável comunicar. Gosto imenso de conversar, compartir o pouco que sei, aprender com os demais e disfrutar da companhia dos que me são próximos ou caros em afeição. 
Além de tudo isso, ocupava os tempos livres com hobbies de cariz bastante mais construtivo e enriquecedor.

Voltando aos factos...

Tudo mudou quando o Xico disse: «Eureka!... A Isabel vai à feira amanhã, de certeza!... Só não a encontras se não quiseres.»

Eis que voltou a brilhar o sol na tenebrosa penumbra que enegrecia a minha aura. 

Por impedimentos inadiáveis, o Xico não podia ir à feira e eu já tinha ajustado outros compromissos, improteláveis e relevantes.

Fosse como fosse, a feira tornou-se o centro das prioridades, o mais desejado e importante evento do universo.

Regressei com a persuasão heróica de um oficial romano – tão pronto para a luta como desejoso por lutar.

Regressei directamente a casa.
Essa noite pareceu-me interminável. Ansioso e imaginando mil um cenários para o dia seguinte, praticamente não consegui dormir.

Eis que, enfim, chega a segunda-feira.

… /…




segunda-feira, 20 de março de 2017

Viagem às portas do paraíso onde imperava a minha "diva"...

… Continuando…

Eis-me, finalmente, chegado ao domingo, na cronologia (e, por que não dizer, na cronografia, uma vez que o tempo se funde com os factos) do meu relato. Nunca a expressão “dia santificado” teve tanto significado.

À hora que havíamos acordado lá estava eu na casa do Xico. Eu ia ansioso mas pouco convencido. Em bom rigor, eu sempre me persuadi que não tenho direito a grandes mercês da sorte.

O Xico não me havia revelado nada sobre a morada da minha “semideusa”. Agora, porém, e para descartar as nossas formas de transporte disponíveis - bicicleta e motorizada -, começou por localizar o pedacinho de paraíso onde a minha "diva", radiantemente, reinava. Então, propôs que fossemos a pé porque ela morava na freguesia vizinha. Seriam, quando muito, três quilómetros e, acrescentou ele, «há grandes vantagens em irmos à pé: “controlamos” as miúdas, podemos conversar sem problemas… enfim, só vantagens!»

Para mim, a grande desvantagem era o calor infernal de um dia de finais de Junho. Porém, dada a urgência e a importância da jornada, eu estava pronto a todas as adversidades, mesmo que fosse para uma peregrinação a Santiago Compostela.

Seguimos jornada. Como bons aldeões estávamos dotados de uma resistência digna de um militar das tropas de elite e de uma capacidade de resiliência quase sobrenatural. Os dois havíamos nascido e crescido numa aldeia pacata, alegre e feliz. Depois da Páscoa começava a época das festas. Era muito raro o fim-de-semana sem festa, romaria ou simples bailarico.

Retomando o caminho seguido, juntamente com o meu amigo Xico, nesse dia de Junho do ano de oitenta e três, eis-me completamente incrédulo: eu estava dentro do “meu território”, não estava em local que eu desconhecesse em absoluto.

Três coca-colas depois, ou seja, passados três cafés, entramos num estreito carreiro “de pé-posto”, muito polido pelo intenso trânsito pedonal, servia, inclusive, de atalho para uma concorrida feira quinzenal. Era no seguimento dessa estreita vereda que se situava o pedacinho de Olimpo onde vivia a minha inigualável e celestial "diva". 

O quintal dela tinha (e tem) a particularidade de ter caminho público em todo o seu perímetro. Podia, por isso, circundar todo o quintal.

Com o coração desafiar o rendimento extremo de um motor de fórmula 1, todo o corpo preparado para receber o impacto de um raio eléctrico de elevada potência e voltagem, à espera receber aquela sensação inibidora de todas as minhas reacções vitais,  racionais e instintivas, circundei duas vezes o quintal, num acto quase de adoração. Não sei se o Xico disse algo. Se falou, eu não ouvi nada.

Como um submisso vassalo, rondei “o paço da suprema princesa”; como um crente, senti-me a venerar uma entidade celeste.
Nada! A casa estava completamente silenciosa, fechada, deserta.

Oh desilusão!... Não podia receber maior decepção, uma penalização mais pesada, um golpe mais incisivo.

Porquê, meu Deus, tal castigo? Porquê esta falta de sorte? Porquê?...
Trocava tudo por vê-la… eu necessitava ver essa semideusa chamada Isabel, imperiosa e desesperadamente!

Desapontado, vencido e completamente de rastos, não derramei lágrimas mas chorei de forma sufocada no mais profundo do meu peito.

Vendo a minha cara de desilusão, o Xico teve uma (mais uma) brilhante ideia.


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terça-feira, 14 de março de 2017

Quando “ELA” é o centro do universo e a ansiedade tortura…

… Continuando…

Estava eu, na minha narrativa, no ponto em que havia montado guarda à porta do Xico. 
Com a determinação do mais destemido mestre d’armas, com a coragem de um guerreiro e com uma ousadia que ofuscava a valentia do Santo Condestável, não arredaria pés dali sem saber algo de substancial sobre a “minha diva”.

Parece que a sorte protege os pertinazes e, quiçá, esteja mais do lado dos obstinados do que dos apaixonados. Pela minha obstinação merecia ser compensado com alguma ventura. O Xico chegou ao anoitecer. Trabalhava de padeiro, levantava-se pelas três da manhã e, rotativamente, ele e os colegas dividiam as noites de domingo para segunda-feira, já que, nessa idade e nessa época, o fim-de-semana era um tempo crítico e precioso. Por isso regressou cedo. 
Mal o avistei ao longe, pareceu-me que o mundo se iluminou e saí prestes ao seu encontro, com a ânsia do bíblico pai do filho pródigo. 

Embora o Xico estivesse um pouco agastado comigo, fruto da discussão dessa tarde, acedeu submeter-se à minha inquisitorial “entrevista” (eu bombardeava-o com perguntas, sem lhe dar folgo), a contragosto do padrasto. O padrasto era uma mal-azada figura, insuficientemente escanhoado, de tez crestada, com um ar de magrebino ressequido e recurvado, usava uns óculos desproporcionais e padecia de uma crónica falta de delicadeza no tom de voz. Apesar disso, não o julgo por má pessoa.

Quase sem tempo para respirar, o Xico foi desfiando as mais sublimes e desejadas palavras do mundo, para aquela ocasião. Para mim soavam como a mais melodiosa e encantadora sinfonia. Deleitava-me ouvi-lo dizer que sabia tudo o seu respeito: o nome, onde morava, a idade… até a alcunha de família e uma incrível coincidência - eu conhecia um irmão dela.

O Xico passara com ela umas tardes e, dando-me razão, também ele achava que a ela era «uma miúda especial».

Havia, contudo um senão: ele podia estar errado (podíamos estar a falar de pessoas diferentes)!

Questionei entusiasmado: «Xico, quando vais comigo até à casa dela?...»

Aqui residia um problema. Apenas poderia ir comigo no domingo seguinte.
Inconformado, restou-me aceitar que assim fosse, na certeza de que uma semana costumava passar depressa.

Não consigo expressar muito bem a dificuldade que tive em passar essa semana. A ansiedade, a incerteza, os sonhos, a convulsão que me percorria o corpo quando a imaginava frente a mim, a sensação de calor que nascia no peito e percorria todo corpo quando recordava a sua figura, o desejo de vê-la, a constante incerteza, o tempo que passava tão vagarosamente, a insegurança que me atormentava pela quase certeza de que, na sua presença, seria possuído pelo pânico e não teria capacidade de reacção… enfim, tudo isto repetido na duração centúria de cada dia e no martírio infindo de cada noite.

Cancelei todos os meus “compromissos”. Nada tinha interesse. Tudo era inútil, supérfluo e dispensável. Eu passei a ver-me como sendo a pessoa mais ridícula e insignificante do mundo. Ninguém tinha mais defeitos do que eu, ninguém tinha tão poucas qualidades e tão grande falta de virtudes.

Neste clima hostil de “estado de sítio” permanente, eis que a semana passa e, finalmente, chega o domingo.  

… /…                             

sábado, 11 de março de 2017

O primeiro efeito dessa "minha diva" na minha história de vida...

…Continuando…
Dizia eu que “in die illa, lucem accendit est et spes renascitur...” (naquele dia acendeu-se uma luz e renasceu a esperança… [no meu ferrugento latim]).
 Em abono da verdade, não foi uma coisa assim tão simples. Em primeiro lugar, imaginei que o Xico estivesse a galhofar comigo, o que era normal entre nós. Em segundo lugar, eu achava que conhecia todas as pessoas que o ele conhecia e, sobretudo, todas as “suas conquistas”.
Contudo, o Xico foi rotundo e directo: «Essa miúda que tu descreveste é a Isabel, tenho a mais absoluta certeza!»
Ante a minha incredulidade, ele foi ainda mais convincente: «Sei bem onde ela mora, não é mui longe, conheço a sua família e já passei umas tardes com ela…»
Claro que eu não cabia em mim de alegria, mas ficava-me o receio da desilusão. E se não fosse ela!?...  
Desafiei o Xico a irmos, sem mais delongas, ao encontro dela. Só que, infelizmente, nesse dia tínhamos um compromisso que, para os restantes membros do grupo, era mais tentador. Para mim, procurar a “a divinal e electrizante” miúda era o mais importante da vida. Estávamos num insanável conflito de interesses. Quase se gerava uma quezília grave entre nós.
Como resultado da discórdia que se criou, decidi não acompanhar o grupinho nesse dia. Essa foi (apenas) a primeira complicação, a primeira alteração da minha vida, por causa dessa “diva” que, na realidade eu nem conhecia nem tinha a certeza se o Xico a conhecia.
Eles partiram para a festa, como estava calendarizado. Eu regressei a casa.
Custou-me a estar em casa. Eu não podia esperar… necessitava saber mais coisas sobre a minha “diva”.
Vi-me possuído por uma ansiedade insuportável, por uma necessidade incontrolável de fazer algo que aliviasse um aperto desesperante que me sufocava o peito.
Tentei dormir mas não consegui. Tudo me parecia irritante e inútil… Assim passei essa infindável tarde de domingo, esperando que anoitecesse. Ao cair da tarde fui colocar-me de sentinela à entrada da casa do Xico. Decididamente, não sairia de lá sem saber tudo sobre a minha “diva”, nem que para tal tivesse de esperar toda a noite.
Lá fiquei, tempo infindo e num estado em que cada minuto parecia estender-se por várias horas, até que, finalmente, o Xico surgiu ao  alcance da vista.


…/… 

quarta-feira, 8 de março de 2017

A boa-nova!... (In die illa, lucem accendit est et spes renascitur...)

...Continuando...

Aquele grupinho de aventura ao qual eu pertencia não era um gang. Era um grupinho de amigos, responsáveis, bem-intencionados e que se esforçavam por manter as suas malandrices dentro dos limites da polidez, urbanidade e educação, pese embora, uma ou outra vez, as simples brincadeiras que fazíamos tivessem resultados infelizes.
Apesar disso, a minha família não via com bons olhos a integração nesse grupinho, mais em razão dos interesses divergentes dos seus membros e da pouca propensão para a cultura, do que das suas acções – eram maus exemplos em termos académicos, em termos culturais e em termos de interesses. Contudo, como eu sempre fui bom aluno, com um comportamento quase imaculado e mantinha uma estreita ligação com as artes, sempre gozei de uma moratória que distendia até bem longe a minha liberdade.
Um dos membros desse grupinho era um jovem de compleição franzina, muito moreno, extremamente ágil e com uma história de vida tão longa quanto tortuosa.
Foi criado, desde muito tenra idade, por uma tia-avó. A sua progenitora, mãe solteira, com mais dois filhos (mais velhos), abandonou o petiz aos cuidados da tia. Vivia a cerca de um quilómetro da minha casa e fomos bons companheiros de infância. Quando chegou a idade de ingresso na escola, a tia-avó conseguiu que o petiz fosse admitido na “Oficina de S. José”, onde permaneceu, apenas em tempo de aulas, até completar a quarta classe. Obtido o diploma desse grau académico, abandonou a instituição e regressou à companhia de “velhota”. Por ali foi sobrevivendo, entre a casa da tia-avó e a dos vizinhos. Entretanto foi arranjando algumas ocupações, nunca de grande duração mas onde, pelo menos, tinha alimentação, eventualmente tinha também dormida e ganhava para os “gastos”. Chamava-se Francisco – era, simplesmente, o Xico.
À data dos factos em que estava sincronizada a cronologia da minha narrativa, já havia falecido a tia-avó do Xico. A sua progenitora regressara, agora com um novo companheiro e mais dois irmãos, ainda muito pequeninos. Nessa altura o Xico trabalhava numa padaria. Trabalhava de noite e, a maior parte das vezes, pouco dormia de dia. Tinha, no entanto, uma resistência incrível e uma energia que ensombrava a fama das pilhas “Duracel”.
De vez em quando, o Xico gabava-se de ter “engatado” uma miúda, pelo que, durante um ou dois fins-de-semana não apareceria “ao toque de reunir” para a formatura do grupinho.
Naquele domingo, dia de vinte e seis de Junho, desse ano de aventuras, o ponto de encontro do grupinho era num café que actualmente já não existe (conhecido como Café Galocha ou Café do Pistolão – denominação herdada da alcunha do proprietário).
Quando o Xico chegou já eu e os restantes membros do grupinho estávamos a postos. Saciada a sede e actualizadas as novidades, eu estava demasiado calado, a ponto de ouvir o Xico dizer: «Tu nem falas… viste alguma assombração ou estás tolhido pelo calor?»
Fui sincero: - «acho que vi uma assombração…»
E desatei a contar a inopinada e quase celestial visão. 

Tão concreto, rigoroso e expressivo fui na minha descrição que, ainda eu não tinha acabado de narrar o sucedido, já o Xico afirmava, de forma categórica e indubitável: «Éh pá!… Eu conheço muito bem essa miúda!...»

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